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O Gang da Silagem - artigo de opinião por Carlos Neves

publicado em 12-07-2017

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Por Carlos Neves

19 de junho, segunda-feira depois da tragédia de Pedrógão. Era fim da tarde e eu, para variar, andava a "mudar regas", o calvário dos agricultores durante o verão, quando o Pedro Pimenta mandou uma mensagem para a direção da Aprolep: "É possível mandar um camião de feno, oferecido pelos produtores, para Pedrógão? O pedido de ajuda, através da Dra Elizabete Martins, vinha dos veterinários que já estavam no terreno a tratar os animais feridos e famintos. Só em Pedrógão contavam-se 1500 animais mortos e 3000 vivos, com fome. Pensámos juntar dinheiro e comprar em Trás-os-Montes um camião de fardos de feno pequenos, mas àquela hora já não era possível. A malta das vacas aqui da zona já quase não usa fardos pequenos, não há mão de obra para carregar, pelo que usamos máquinas de fardos grandes, em rolos ou "quadrantes", com centenas de quilos, que se carregam com o trator. Em alternativa de emergência, havia em Coimbra uma palha para enfardar na manhã seguinte, foi então enfardada terça de manhã e à tarde já o Pedro entregava em Vila Facaia, Pedrógão, o primeiro carregamento, transportado pela cooperativa de Coimbra. Para quarta-feira já estava prometido um camião da Lacticoop com palha e ração, por isso avançamos com calma para a nossa primeira carga de rolos de feno-silagem na quinta-feira, com o apoio do José Carlos que mobilizou a sua equipa da Agrolink e o camião da empresa Alberto Dias de Oliveira, Lda. Depois, contactámos o Ministério da Agricultura que anunciara estar a coordenar a ajuda e nos deu os contactos das pessoas a contactar nas várias Câmaras Municipais dos concelhos afetados. Conseguimos o segundo camião disponível no sábado, concentrámos os rolos na Agrolink no sábado ao fim do dia e no domingo de manhã, com o trabalho voluntário do Hélder Lopes que fez a descarga dos rolos que levámos nos reboques, segunda-feira seguiu o segundo camião para Pampilhosa da Serra e na quinta-feira seguinte carregámos o terceiro camião, agora com destino a Góis, concentrado na Ucanorte e levando além dos nossos rolos 4 toneladas de ração oferecidas pela Ucanorte. Escuso-me de referir todos os nomes e empresas, porque a segunda carga já teve reportagem da SIC e a terceira da TVI.

No momento em que escrevo, temos mais ofertas de rolos e camiões disponíveis para transportar, mas aguardamos que haja necessidade e disponibilidade de armazém nas regiões afetadas, porque felizmente a nossa ação foi apenas uma gota num oceano de solidariedade dos portugueses e de várias organizações agrícolas e fábricas de rações. Além disso, e espero que esta mensagem chegue aos agricultores que recebem os rolos de feno-silagem, convém que os rolos plastificados sejam gastos rapidamente ou a erva espalhada para secar, porque o plástico de alguns rolos rasga-se durante o transporte e os outros, apesar de parecerem intactos, podem voltar a fermentar e ganhar bolores, por causa da manipulação nas sucessivas cargas e descargas desde o campos de origem até chegar aos animais afetados pelos incêndios no Centro do país.

Como é evidente, sendo o feno oferecido, não se passa fatura, é feita apenas uma guia pelo transportador. Por isso, algures entre o segundo e o terceiro camião, dei por mim a sorrir ao pensar que estávamos a ser uma espécie de "traficantes de rolos". E, por associação de ideias, lembrei-me que a silagem de erva ou de milho que é a base da alimentação das vacas leiteiras em Portugal continental, também é muitas vezes o “patinho feio” da alimentação animal, logo a seguir àquela coisa com o nome negativo de "ração" (se dissermos cereais, já parece melhor!). O que está na moda, o que é bonito, saudável, ecológico, é a pastagem. Bem, não ponho em causa a vantagem do exercício e do sol para as vacas de pastagem, não ponho em causa que a pastagem direta da erva pelas vacas, ovelhas ou cabras, seja a opção mais correta na montanha, nos Açores ou em qualquer região que tenha condições naturais para as pastagens. Sobretudo, não quero, de modo algum, criticar os criadores afetados pelos incêndios e que baseiam a alimentação dos animais na pastagem, pois, como bem disse em entrevistas o presidente da Aprolep, a pastagem é uma das melhores formas de prevenir os incêndios pela limpeza dos terrenos e foi também por isso que quisemos apoiar a manutenção da agricultura nas regiões afetadas. Agora, também já chega de tratar quase como um gang de criminosos os agricultores que cortam a erva na primavera, secam um bocadinho, enrolam e plastificam ou levam para casa, colocam no silo, calcam para tirar o oxigénio e colocam um plástico para o oxigénio não entrar e assim ocorrer uma fermentação natural na erva, que a deixa com um cheiro que pode ser menos agradável para narizes sensíveis mas que a permite conservar durante mais de um ano, ter alimento para os nossos animais e até dispensar alguns rolos aos colegas que passaram pela enorme tragédia dos incêndios. Se estivéssemos todos em pastagem, não havia rolos de erva para ajudar ninguém.

Publicado em simultâneo no jornal “Terras do Ave”

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