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Também no (Sector do) Leite se constroem muros?

publicado em 10-07-2017

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*Artigo de opinião por João Freire



Foi publicado em Diário da República, no passado dia 9 de Junho, o Decreto-Lei n.º 62/2017, que “estabelece o regime aplicável à composição, rotulagem e comercialização do leite, dos produtos derivados do leite e aos produtos extraídos do leite”. Entre outras obrigações, estabelece a da indicação (nas embalagens) da origem do leite utilizado como ingrediente nos produtos lácteos, devendo ter a menção do País de ordenha e do País de transformação.
Depois da França e da Itália seguiu-se Portugal e, acreditando nas notícias que nos chegam do País vizinho, também a Espanha implementará até final do ano igual disposição.
Não estou certo de que caminhemos na direcção certa. Não creio que a resolução dos problemas que afligem (e muito!) este sector, passe por uma “renacionalização” da PAC.
Sendo aparentemente uma “boa medida” do ponto de vista da protecção da produção nacional, o que acontecerá às nossas exportações quando a Europa “mais próxima” tiver implementado a “sua” Lei da Origem? Como vão encarar os nossos vizinhos a entrada de leite e de outros produtos lácteos “estrangeiros” nos seus Países? Como nós?
Dir-se-á que existe espaço no nosso País para produzir aqueles produtos que hoje (cada vez menos) importamos, consumindo assim um maior volume de leite em natureza e até dando espaço e condições de crescimento aos nossos Produtores de leite. Mas existem condições de rentabilidade e de mercado, actuais e futuras, para se promoverem e amortizarem os investimentos que se venham a revelar necessários? Com o inevitável aumento de custos estará o consumidor disposto a pagar mais por um produto que hoje lhe fica mais barato? E o que faremos quando se colocar a questão “que fazer aos excedentes de leite crú?” que, ciclicamente, se geram? Se hoje, quando essa situação se coloca a exportação é uma via de escoamento, o que faremos com eles quando essa possibilidade não existir ou fôr dificultada?! Que efeito terá nos preços nacionais de aquisição do leite crú à produção a diluição desses volumes “extra” no mercado nacional? E não nos esqueçamos de que continuará sempre – como hoje - a existir a tentação de colocar alternativas mais baratas no linear de venda ao público…
Por outro lado, também é comum ouvir falar-se em “inovação” e da necessidade (exigência, mesmo!!!) que existe de os Industriais “inovarem” por forma a serem cada vez mais competitivos, colocando à disposição do consumidor mais e melhores produtos. Só alguém muito distraído (para ser simpático…) pode dizer tal coisa. Alguém pode, hoje, ficar verdadeiramente indiferente perante a oferta e diversidade de produtos lácteos que se encontram num linear de supermercado, à disposição do consumidor?! Desde o leite aos iogurtes, passando pelos queijos e manteigas, é de tal forma diversa e abundante a oferta que nenhum segmento da população se vê hoje “obrigado” a ficar excluído do consumo de leite e lacticínios.
Não resulta isto da inovação? da resiliência? do querer e da vontade que a Indústria tem demonstrado?
Creio firmemente que também por falta de debate e esclarecimento (vontade de?) entre todos os intervenientes no Sector se perdeu mais uma oportunidade para valorizar um produto tão nobre e que tanto esforço implica na sua obtenção como é o leite. A excelente ideia de fornecer ao consumidor a “identidade” daquilo que está a consumir não resistirá, por muito “pó” que se queira levantar à sua volta, não resistirá dizia, aos baixos preços praticados no nosso mercado. Enquanto a Europa iniciou há meses atrás uma lenta mas firme recuperação vendo os produtores a melhoria das suas condições, por cá, continuamos exactamente iguais, imersos numa profunda crise da qual alguns teimam em não nos deixar sair. Não é possível dar melhores condições seja a quem fôr enquanto continuarmos a assistir a politicas de preços extremamente baixos, agravadas por constantes e agressivas promoções, que mais não fazem que depreciar o produto. A delapidação de valor é tremenda, repercutindo-se com enormes danos em toda a cadeia a montante da venda.
Assim sendo, a construção de “muros” hoje tão em moda e que mais não fazem do que fechar-nos sobre nós próprios dando uma falsa sensação de segurança, deve ser substituída pela construção de “pontes” que, elas sim, nos permitem ultrapassar as dificuldades e divergências que todos sentimos e sabemos ser urgente resolver.

João Freire
Dept.º Técnico de Apoio aos Produtores - Parmalat
 

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