A Enterotoxémia, causada por
Clostridium perfringens, é uma doença bastante comum em caprinos, muitas vezes fatal e que se encontra espalhada por todo o mundo. A doença também ocorre em ovinos e em bovinos, mas a sua epidemiologia, patogenia, sinais clínicos e controlo não são iguais nas três espécies.
Em caprinos o sinal clínico mais comum é a diarreia, há
lesões de enterocolite grave e a
eficácia da vacinação é menor em comparação com os ovinos e os bovinos.
EtiologiaO agente
Clostridium perfringens provoca doenças entéricas num grande número de espécies, incluindo os ruminantes, aves e humanos. Estão identificados cinco tipos de
Cl. perfringens com base nas toxinas produzidas.
O principal agente envolvido na enterotoxémia caprina é o
Cl. perfringens tipo D. Esta bactéria produtora de toxinas, anaeróbica é um habitante do tracto digestivo dos ruminantes, geralmente em pequeno número. Este organismo tem uma velocidade de multiplicação muito rápida (oito minutos) o que permite que o seu número aumente brutalmente no intestino em condições favoráveis. Esta rápida proliferação, associada à libertação de toxinas é a responsável pelos problemas no hospedeiro, que podem conduzir à sua morte. O
Cl. perfringens tipo D produz duas toxinas, alfa e epsilon, sendo a toxina épsilon considerada a toxina virulenta.
EpidemiologiaA enterotoxémia é frequentemente referida, por produtores, veterinários, extensionistas, entre outros de todo o mundo como uma doença muito importante em caprinos. No entanto existe menos informação disponível sobre enterotoxémia em caprinos em comparação com ovinos, por exemplo.
A maior parte dos episódios de enterotoxémia em cabras ocorre em animais em regime intensivo e semi-intensivo.
As alterações bruscas no regime alimentar são frequentemente associadas aos surtos de enterotoxémias nas várias espécies.
Na minha experiência noto que há surtos de diarreia em cabras quando se abre um novo silo, ou se mudam as matérias primas da alimentação. Estes episódios de diarreia podem estar associados a enterotoxémia.
Há uns anos atrás acompanhei um caso clínico num efectivo caprino, com 500 animais, em que houve substituição de milho por trigo no concentrado que se estava a dar a essas cabras. É sabido que a velocidade de fermentação do amido de trigo no rumen é muito maior do que a do amido de milho. Se factores como este não forem bem ponderados, podem ocorrer problemas digestivos (acidose ruminal), devido à passagem de maior quantidade de amidos para o intestino. A chegada de mais amido ao intestino pode facilitar a proliferação exagerada da
Cl. perfringens. No total morreram cerca de 40 caprinos.
PatogeniaA ingestão súbita de carbohidratos facilmente fermentescíveis permite a passagem de amidos para o intestino fornecendo ao
Cl. perfringens um substrato para a sua rápida proliferação com produção de toxina. Há um aumento da permeabilidade intestinal o que facilita a passagem da toxina para a corrente sanguínea, daí resultando uma toxémia generalizada. Em ovinos a morte ocorre por lesões nervosas irreversíveis.
A patogenia da enterotoxémia em cabras é diferente em termos de efeitos intestinais. Assim em cabras a diarreia é o sinal clínico mais predominante, observando-se na necrópsia lesões de enterocolite.
Sinais clínicosEm cabras a enterotoxémia pode apresentar-se sobre três formas, hiperaguda, aguda e crónica. A forma hiperaguda ocorre mais frequentemente em animais jovens. A evolução é muito rápida, não há geralmente sinais clínicos aparecendo um ou mais animais mortos (geralmente os mais robustos). A história clínica revela muitas vezes alterações no regime alimentar.
Na forma aguda os sinais clínicos incluem perda de apetite súbita, depressão, desconforto abdominal, vocalização, fezes pastosas no inicio e líquidas no final. Esta forma da doença afecta mais as cabras adultas. A maioria dos animais morre ao fim de 3 a 4 dias, se não forem tratados.
Na forma crónica os episódios de doença podem ser observados durante várias semanas, os animais adultos são os mais afectados, apresentando-se tristes, com perda de apetite e de produção de leite, perda de peso e episódios intermitentes de diarreia. Por vezes para um clínico é difícil associar esta forma de doença a enterotoxémia.
Patologia Clinica e NecrópsiaA patologia clínica nos casos de enterotoxémia é muito pouco específica (leucocitose, com neutrofilia, hematócrito aumentado, hiperglicemia).
À necrópsia lesões de enterocolite são os achados mais consistentes nas mortes por enterotoxémia (ver figuras 1 e 2). Nas necrópsias que tenho realizado em ovinos encontro muito frequentemente glicosúria no caso da bexiga conter urina. No entanto, raramente encontro glicosúria em caprinos. Também o denominado rim pulposo, referido por vários autores em ovinos, é muito menos frequente em caprinos, nas necrópsias por mim realizadas. Este achado só tem valor diagnóstico se a necrópsia for realizada muito pouco tempo depois da morte do animal, devido ao facto da autólise do rim ocorrer muito rapidamente, sobretudo no verão. O diagnóstico pode ser confirmado no laboratório, através de esfregaço por aposição de órgãos, isolamento e identificação a partir de órgãos e identificação de toxinas responsáveis por enterotoxémia. No campo, o clínico nem sempre consegue colher material em condições e enviá-lo para o laboratório.
DiagnósticoO diagnóstico diferencial deve incluir todas as situações em que ocorre morte súbita, nomeadamente toxicidade por plantas ou substâncias químicas. O Dr. William Rebhun da Universidade de Cornell, EUA, refere o facto da importância das necrópsias nos casos de enterotoxémia. No entanto, segundo ele a necrópsia na maioria dos casos serve sobretudo para excluir outras possíveis causas de morte.
TratamentoA administração de antibióticos parece ser eficaz (penicilina, tetraciclina, trimetropin-sulfamida). Na minha práctica clínica quando me deparo com um caprino com diarreia, administro penicilina. Esta práctica é utilizada por veterinários no norte de Espanha. A ideia é que potencialmente a enterotoxémia, na maioria dos casos, é a causa da diarreia nestes animais.
ControloAs cabras são animais altamente susceptiveis a enterotoxémia e recomenda-se que num esquema de vacinação de um efectivo todos os caprinos sejam vacinados contra a enterotoxémia. Contudo foi demonstrado experimentalmente que a vacinação não é tão eficaz em caprinos como é em ovinos. A produção de anticorpos pela vacina é de curta duração (90 dias). Assim recomenda-se que cabras adultas sejam vacinadas de 3 a 4 vezes (no mínimo 2 vezes) por ano de modo a maximizar a protecção contra a enterotoxémia. A primeira vacinação dos cabritos deve ocorrer entre as 4 e as 6 semanas, com uma revacinação 3 a 4 semanas depois. Além da vacinação, o controlo da enterotoxémia passa por um maneio alimentar das cabras correcto e que consiste em evitar mudanças bruscas na alimentação. É fundamental que o concentrado (amido) seja fornecido em pequenas quantidades de cada vez.
Bibliografia:Smith M.C. e Sherman D.M. (2009), Goat Medicine. 2nd Ed. Wiley-Blackwell, Ames, IA, EUA.

Legenda da figura 1Intestino delgado de caprino distendido com gás e apresentando multiplos focos hemorrágicos, característico de Cl. perfringens tipo D
Legenda da figura 2
Intestino (delgado e grosso) de caprino distendido com gás e com um aspecto hemorrágico e difuso, característico de Cl. perfringens tipo D
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