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Teste Californiano de Mastites para diagnóstico de mastite subclínica em cabras

Por Cristina Queiroga e Filipa Grosso
publicado em 17-11-2017

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Autoras:
Profª. Cristina Queiroga (Profª Auxiliar Universidade Évora - Departamento Medicina Veterinária)
Filipa Grosso (Aluna Mestrado Universidade de Évora)


A mastite é uma das patologias mais nocivas ao setor de lacticínios, esta afeção está diretamente relacionada com perdas de produção, decréscimo da qualidade higiénica do leite, elevados custos na terapêutica e com eventuais problemas para a saúde pública.

A mastite pode manifestar-se de duas formas: clínica – mastite clínica (MC) –, no caso de existirem manifestações evidentes no úbere (Figura 1) e/ou no leite, as quais podem assumir distintos estádios de severidade; e subclínica – mastite subclínica (MSC) – no caso de não ser possível observar quaisquer sinais clínicos de inflamação nem de alteração da aparência normal do leite.


Figura 1- Caso de mastite clínica em cabra de raça Serpentina (fotografia original)

O processo infecioso da mastite está dividido em três fases:
Invasão → Os microrganismos passam do exterior para o interior da glândula mamária. Geralmente a invasão ocorre quando os microrganismos penetram na glândula mamária através do canal do teto.
Colonização → Os microrganismos fixam-se às células mamárias e estabelecem-se começando a proliferar.
Reação do hospedeiro → Principiada por uma reação inflamatória. Nesta fase no caso da MC surgem os sintomas, e na MSC o aumento Contagem de Células Somáticas (CCS).

O diagnóstico de MC tem por base a observação de alterações no úbere e /ou alterações no aspeto característico do leite. Para o diagnóstico de MSC, como não há alterações visíveis nem no úbere nem no leite, fazem-se análises ao leite. O método de diagnóstico mais utilizado é o Teste Californiano de Mastites (TCM).


O TCM faz uma estimativa da quantitativa de células somáticas presentes no leite através da quantidade de DNA. O reagente do TCM, tem uma ação detergente que causa a lise das células e a gelificação do DNA livre, sendo possível, pela observação da consistência da mistura, estimar a quantidade de células presentes no leite. O reagente é também um indicador de pH.

A CCS aumenta no leite devido a um aumento de leucócitos, resultantes da reação inflamatória no úbere como resposta à infeção, é um índice quantitativo aceite como indicador de mastite em bovinos. No caso do leite de cabra, existe controvérsia devido ao facto de a secreção do leite nestes animais diferir no mecanismo relativamente aos bovino. Em cabras, dá-se a secreção apócrina onde é eliminado o produto de secreção e parte do citoplasma envolvidos por membrana celular. Já nos bovinos, trata-se de secreção merócrina e a secreção é eliminada sem perda do citoplasma (Persson, Larsen, & Nyman, 2014) como ilustrado na Figura 2. A secreção apócrina resulta na libertação de partículas citoplasmáticas nucleadas e não nucleadas no leite. As partículas nucleadas serão incluídas na contagem celular total. Ao contrário do leite proveniente de vaca, a contagem de células somáticas no leite de cabra é influenciada pela presença de partículas citoplasmáticas nucleadas.



Figura 2- Secreção apócrina e secreção merócrina





O grau de gelificação formado entre o leite e o reagente do TCM pode ler-se subjetivamente, de acordo com a Tabela 1.

Tabela 1- Relação entre grau do TCM, e contagem aproximada de células somáticas por mililitro de leite (Radostits, 2000)





Foi realizado um estudo em que foram analisados dados que são respeitantes a amostras de leite de cinco explorações, os efetivos estudados incluem as raças Serpentina e Murciana Granadina, e os tipos de ordenha manual e mecânica.
A presença de MSC foi detetada pelo TCM efetuado em todas as amostras recolhidas (n= 308). O teste foi realizado no laboratório, e procedeu-se do seguinte modo:
1. Colocou-se cada amostra de leite num dos vasos da “raquete”;
2. Acertou-se a quantidade a 2mL, inclinando a “raquete” até aparecer a linha no fundo do vaso;
3. Adicionou-se 2 mL de reagente do TCM;
4. Homogeneizou-se a mistura exercendo movimentos circulares à “raquete” e interpretou-se de acordo com a Tabela 2 e Figura 3.



Tabela 2- Interpretação do TCM (Giesecke et al., 1994)






Figura 3 - “Raquete” com as diferentes reações do TCM

Os resultados obtidos no TCM das amostras recolhidas nos cinco efetivos estudados (n=308) e os respetivos graus de severidade estão discriminados no Gráfico 1.










Gráfico 1- Resultados do TCM das amostras de leite recolhidas nos cinco efetivos e respetivos graus de severidade

No estudo da relação entre o tipo de ordenha e os resultados de TCM obtidos, são comparados os tipos de ordenha com o número de resultados positivos e negativos de TCM para cada efetivo estudado (Gráfico 2). Foram considerados resultados positivos aqueles em que o TCM indicou reação, 1+, 2+ e 3+, e os casos de MC de acordo com o ponto “cut-off” determinado no estudo da relação entre o TCM e a Infeção Intramamária (IMI).




Gráfico 2- Relação dos tipos de ordenha e número de resultados positivos e negativos do TCM

Para estudar o resultados do TCM como indicador de IMI bacteriana foram calculados a sensibilidade, a especificidade, o valor preditivo dos resultados positivos e o valor preditivo dos resultados negativos de acordo com Thrusfield (1999) (Tabela 3)

Tabela 3- Determinação da sensibilidade, especificidade, valor preditivo positivo e valor preditivo negativo



O valor para o qual o índice de Youden for superior é o valor mais adequado para servir de ponto “cut-off” para interpretação do TCM. O índice de Youden para cada valor de resultado do TCM foi determinado da seguinte forma (Redetzky et al., 2005):

Índice de Youden = Sensibilidade + Especificidade – 1

Os resultados do TCM foram posteriormente comparados com os resultados das respetivas análises bacteriológicas, para avaliar a utilização do TCM como indicador de IMI em cabras (Gráfico 3).



Gráfico 3 – Comparação dos resultados do TCM com os resultados das respetivas análises bacteriológicas

Neste estudo, foi possível, através do rastreio de mastite caprina, verificar que a prevalência de mastite, designadamente mastite subclínica, nas cabras é elevada (47,4%). Os resultados obtidos em 308 amostras de leite revelaram que se obtiveram 146 resultados positivos 1+, 2+, 3+ e MC.

Os animais sujeitos a ordenha mecânica revelaram ter mais casos de mastite, tendo sido obtida uma percentagem total de 52,7% para casos positivos no TCM. No tipo de ordenha manual 36,9% foram positivos. Estes resultados, parecem indicar que no tipo de ordenha mecânica a probabilidade de ocorrerem casos de mastite é superior à ocorrência na ordenha manual.

O ponto “cut-off” mais indicado para interpretação do TCM, de acordo com os resultados obtidos, é a reação 1+.

De acordo com os resultados obtidos, o Teste Californiano de Mastite não é um bom indicador de Infeção Intramamária em cabras, visto que um elevado número de amostras com TCM positivo não revelaram a presença de bactérias. No entanto é uma boa opção para uma análise rápida, de fácil execução e pouco dispendiosa, que se pode realizar antes da ordenha.


Bibliografia:
  • GIESECKE, W.H.; du Preez, J.H. e Petzer, I.M. (1994). Practical mastitis control in dairy herds. Ed: Butterworth Publishers (Pty) Ltd. ISBN: 0 409 10923 1.
  • PERSSON, Y., Larsen, T., & Nyman, A. K. (2014). Variation in udder health indicators at different stages of lactation in goats with no udder infection. Small Ruminant Research, 116(1), 51–56. https://doi.org/10.1016/j.smallrumres.2013.10.004
  • RADOSTITS, O.M.; Gay, C.C.; Blood, D.C. e Hinchcliff, K.W. (2000). Veterinary Medicine (9ª edição). Ed: W.B. Saunders. ISBN: 0-7020-26042.
  • REDETZKY, R.; Hamann, J.; Grabowski, N.T. e Klein, G. (2005). Diagnostic value of the California mastitis test in comparison to electronically-counted somatic cells in bovine milk. Proceedings of the 4th IDF International Mastitis Conference, Maastricht, The Netherlands, June 2005: 487-494.
  • THRUSFIELD, M. (1999). Veterinary epidemiology (2ª edição). Ed: Blackwell Science Ltd. ISBN: 0632-04851-4


 

 

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Saiba mais sobre os autores deste artigo

Cristina Queiroga    Évora - Évora

Médico veterinário

Filipa Grosso    Évora - Évora

Estudante

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