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Acidose Ruminal: como se instala e quais as consequências para o animal?

POR GEORGE STILWELL

NUTRIÇÃO, FORRAGENS & PASTAGENS

EM 15/07/2014

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Há uma máxima que deve ser constantemente lembrada por aqueles que trabalham com ruminantes, e particularmente na sua nutrição/alimentação – não se alimentam animais, mas sim microorganismos.

O rúmen é o primeiro dos quatro compartimentos gástricos dos ruminantes. É aqui que se desenvolve uma população mista de microorganismos (bactérias, protozoários e fungos) que tornam acessível ao mamífero os nutrientes encerrados a sete chaves nas células vegetais. É essencialmente do resultado dessa digestão bacteriana (e.g. ácidos grodos voláteis – AGV) e ainda dos corpos dos próprios microorganismos, que se compõe a verdadeira alimentação do ruminante.

Sabendo isto é fácil perceber como as mais pequenas alterações no ambiente do rúmen podem afectar dramaticamente a saúde e rendimento do hospedeiro. E uma das alterações mais frequentes entre os ruminantes domésticos é a redução do pH, levando à tão falada acidose ruminal.

Comecemos por distinguir duas formas de acidose que pelas suas causas e pelo seu impacto na saúde e na economia da exploração, devem ser tratadas com entidades separadas. A acidose ruminal aguda (o pH ruminal desce repentinamente para valores inferiores a 5,2) e ocorre quando um animal ingere, num curto espaço de tempo, uma grande quantidade de carbohidratos facilmente fermentescíveis (cereais, concentrado etc…). Esta situação é normalmente acidental (acesso aos sacos da ração, por exemplo), afecta poucos animais e causa a morte quase imediata do animal. Por essas razões não será aqui aprofundada.
A outra forma é a acidose ruminal sub-clínica ou sub-aguda (SARA – Sub-Acute Ruminal Acidosis), que, devido ao forte impacto que tem sobre a saúde e produção de um grande número de animais, merece um tratamento mais pormenorizado. Tanto afecta vacas produtoras de leite com machos na fase final da engorda.

Também no caso da SARA a origem do decréscimo do pH do rúmen é a fermentação de carbohidratos não estruturais (amido…) que compõem o alimento concentrado que fornecemos aos nossos ruminantes, só que em proporções menores e normalmente equilibrado pela acção tampão de certos componentes da saliva (bicarbonato e fosfatos). Na SARA é de esperar valores de pH no rúmen próximos dos 5,5. Este meio, permanentemente mais ácido do que seria natural no rúmen, causa a morte selectiva de populações de microorganismos envolvidos na digestão normal enquanto favorece outras espécies de bactérias (e.g. Streptococcus bovis e Lactobacillus) que fermentam os carbohidratos em ácido láctico ou lactato. A elevada produção deste composto vai piorar a situação, pois o lactato permanece mais tempo no interior do rúmen e devido à sua forte capacidade osmótica vai favorecer a entrada de água para o interior do tracto gastro-intestinal. Daqui resultam as fezes moles típicas de casos de SARA.

As sequelas da SARA prolongada podem ser locais (e.g. hiperqueratose das paredes do rúmen) ou sistémicas (e.g. abcessos hepáticos e alterações da vascularização das unhas, conduzindo a coxeiras). Se bem que ainda seja controversa a explicação dos mecanismos que levam a estas afecções, parece ser indiscutível que a maior acidez do conteúdo provoca irritação e depois inflamação da parede, o que facilita a absorção de toxinas, bactérias e uma série de outras substâncias (histamina etc…). O organismo defende-se produzindo queratina nos tecidos agredidos, o que lhes retira a capacidade de absorver os ácidos gordos voláteis resultantes da digestão microbiana. Alguns destes efeitos adversos podem apenas ser evidentes semanas ou meses após a ocorrência de SARA.

A própria qualidade do leite pode ser prejudicada quando existe no efectivo um grande número de animais afectados por SARA. Isto deve-se ao facto da população microbiana mais afectada pela acidez ser a celulítica que digere os carbohidratos estruturais de onde resulta a produção do acetato. É da metabolização deste AGV que resulta os triglicéridos que compõem a gordura do leite. Assim, é de esperar que numa vacaria de leite com problemas de SARA se produza um leite com baixo teor butiroso.

O controlo ou prevenção da SARA faz-se através de um correcto maneio alimentar, cujas regras são demasiado complexas para serem aqui pormenorizadas. No entanto, alguns princípios básicos podem ser avançados. Por exemplo:

O ruminante PRECISA de fibra. Níveis adequados de fibra efectiva (carbohidratos estruturais provenientes das forragens) estimulam a ruminação, favorecendo a salivação e por isso o tamponamento do conteúdo ruminal.
Conhecer bem as propriedades das matérias usadas na alimentação. Existem diferenças enormes na capacidade que certos componentes da dieta têm de levar a SARA – o tipo de cereal, a dimensão do grão e o processamento a que foi sujeito; o tipo de silagem e a sua composição.
O ruminante tem de comer CONSTANTEMENTE. O bom maneio alimentar deve evitar períodos de grande ingestão seguidos de momentos de baixa ingestão, que ocorre quando o alimento distribuído é insuficiente ou quando em momentos de stress por calor.
No peri-parto das vacas leiteiras deve ser garantida uma correcta e atempada TRANSIÇÃO para dietas de lactação altamente energéticas.


Para colmatar as necessidades metabólicas de vacas altas produtoras de leite é essencial fornecer alimento altamente energético, mas conseguir isso sem provocar oscilações perigosas do pH ruminal e sem conduzir a SARA, só é possível através de dietas completas (Total Mixed Rations), às quais até pode ser necessário adicionar um composto tampão (bicarbonato de sódio).

Mesmo as dietas melhor formuladas podem conduzir a SARA na manada. Quando se fala em fibra efectiva devemos incluir a noção da dimensão das partículas e esta pode ser drasticamente afectada por coisas tão simples como o tempo a que a forragem é submetida à trituração no momento da mistura da dieta completa.

Finalmente uma referência a enorme factor de risco para SARA e que é a possibilidade de selecção do alimento pela vaca (sorting) e que normalmente resulta de uma má mistura da dieta completa. Se for oferecida a possibilidade à vaca de escolher o componente da dieta que pode comer primeiro é óbvio que esta optará pelo concentrado, constituído exactamente pelos carbohidratos facilmente fermentescíveis de que se falava acima.

Em conclusão – a acidose ruminal subclínica é uma doença escondida que afecta muitos dos nossos efectivos leiteiros e de engorda, causando avultados prejuízos económicos directos (e.g. menor gordura no leite) ou indirectos (e.g. maior incidência de doenças), e ameaçando fortemente o bem-estar (e.g. coxeiras). O tratamento de SARA não faz sentido, sendo a prevenção por correcto maneio nutricional/alimentar a única forma de a combater.
 

George Stilwell, médico-veterinário, PhD, Diplom ECBHM
Faculdade de Medicina Veterinária – Universidade Técnica de Lisboa
stilwell@fmv.utl.pt

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PAULO FERNANDO GOMES PAIS E SILVA

ESTARREJA - AVEIRO - INSTITUIÇÃO PÚBLICA

EM 18/07/2014

Acidose ruminal sub-clinica-SARA - As explorações devem cada vez mais procurarem uma dieta para o animal o mais equilibrada possivel, para evitar oscilações de PH no rumen. No entanto conheço explorações onde o Concentrado é fornecido na ordenha, sendo as quantidades fornecidas por vezes elevadas devido á elevada produção da vaca. Isto pode originar acidoses "camufladas". Eu sou da opinião que o equilibrio está muitas vezes no unifeed, pois o arraçoamento é feito para uma média de produção e não é fornecido o concentrado isolado. No entanto a ração na ordenha pode ser um motivo para chamar o animal, e não só. Visito muitas explorações leiteiras e por vezes fico surpreendido por haver muita falta de informação e formação dos produtores. Estas pequenas informações não chegam ao local devido. Há muitos problemas em campo que não são detetados por falta de infromação correta.

Atenciosamente.

Paulo Silva (Eng. Agrícola)