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Amido é um nutriente essencial para vacas leiteiras?

POR ALEXANDRE M. PEDROSO

NUTRIÇÃO, FORRAGENS & PASTAGENS

EM 10/10/2014

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A pergunta que dá título a este artigo foi tema de uma palestra ministrada pelo Dr Mike Allen, da Universidade de Michigan, durante a Discover Conference sobre Amido para Ruminantes, que aconteceu no início de outubro nos EUA. Foi um evento fantástico, do qual tive oportunidade de participar. Logo que assisti à palestra do Dr. Allen pensei que seria um bom assunto para tratar neste Radar. Então vamos lá:

O uso de amido na dieta de vacas leiteiras é pratica corriqueira em qualquer fazenda leiteira, uma vez que a principal fonte desse carboidrato é o milho. Apesar de ser um assunto pra lá de batido, há vários aspectos que muitas vezes deixam de ser considerados. Muita gente não admite uma ração para vacas leiteiras sem ver o amarelo do milho na mistura, mas será que o amido é de fato indispensável? Depois de assistir à palestra do Dr. Allen minha resposta a essa pergunta é: depende...

Como mostrado na palestra em questão, há situações em que o uso de amido é imprescindível para se conseguir alta produtividade das vacas, especialmente para vacas de alta produção. No entanto, quando lidamos com rebanhos ou lotes de vacas com produção média abaixo de 20-25 kg leite/dia isso pode não ser verdade, como mostram alguns trabalhos de pesquisa recentes, em que os grãos de milho da dieta de vacas leiterias foram substituídos por subprodutos da agroindústria, como a casca de soja. Fica evidente que para produções acima dos 30 kg de leite ao dia há resposta positiva ao aumento da inclusão de amido nas dietas, basicamente na forma de grãos de milho.

Mesmo com a vasta base de dados de que dispomos hoje, ainda não é possível definir um nível ótimo de amido na dieta das vacas. Isso vai depender dos outros ingredientes utilizados, por exemplo, da concentração de outros carboidratos e de proteínas. Também é preciso saber a forma como esse amido se apresenta, definida basicamente pelo método e intensidade de processamento dos grãos. O amido de grãos de milho inteiro é menos degradável que o amido de grãos moídos, que por sua vez é menos degradável que o amido de grãos ensilados com alta umidade. Com isso, queremos dizer que cada caso é um caso, ou seja, o nível ótimo de amido varia em função das características dos alimentos utilizados, e do nível de produção das vacas.

Em dietas de vacas de alta produção, em sistemas de confinamento, o amido pode representar até mais de 35% da MS total consumida pelas vacas, sendo que invariavelmente a quase totalidade desse amido vem dos grãos de cereais. A degradabilidade ruminal do amido é extremamente variável, de menos de 50 a mais de 90%, sendo determinada pela taxa de degradação e tempo de retenção dos alimentos no rúmen. A digestibilidade aparente do amido é cerca de duas vezes superior à digestibilidade da fração fibrosa (FDN) para vacas leiteiras, de forma que sua utilização normalmente aumenta o teor energético das dietas e reduz o efeito de enchimento do rúmen.

No entanto, esse aumento pode ser menor do que se espera, pois via de regra quando se substitui fibra (FDN) por amido (concentrado) em dietas de vacas leiteiras, a digestibilidade total da FDN diminui. Isso ocorre principalmente em função da queda no pH ruminal das vacas que recebem mais concentrado. Por um lado há o ganho energético, e por outro pode haver prejuízo no aproveitamento da forragem. O objetivo é buscar um equilíbrio a fim de maximizar o desempenho dos animais. Outro ponto a ser considerado é que em função desse efeito sobre o pH ruminal, fontes de amido altamente degradáveis podem causar redução no consumo total de matéria seca, o que é altamente indesejável.

Com isso, como fazer para formular corretamente as dietas com relação ao amido? Na verdade os nutricionistas consideram não só o amido, mas todo um grupo de carboidratos que são digeridos de forma semelhante ao amido, chamado de Carboidratos não Fibrosos (CNF). Nesse grupo são considerados além do amido, os açúcares simples, a pectina, ácidos orgânicos e a porção solúvel da FDN. De uma combinação entre resultados de pesquisas e experiências de campo, desenvolveu-se uma tabela prática para uso em formulações de dietas para vacas leiteiras. Cada nutricionista costuma ter os seus parâmetros, e a tabela abaixo mostra os valores nos quais me baseio para formular dietas de vacas em lactação

Tabela 1. Recomendações de carboidratos para vacas leiteiras

1 = FDN fisicamente efetiva

Infelizmente ainda não temos parâmetros consistentes definidos nas condições brasileiras. De qualquer forma, as recomendações acima servem bem como guia para formular dietas de vacas leiteiras em nossas condições.

Teores de CNF acima de 40% da MS são perigosos, especialmente se as condições de manejo na fazenda não forem muito boas. Esse limite é ditado pela maior possibilidade de ocorrência de distúrbios como acidose ruminal, resultado do excesso de CHO de fermentação rápida no rúmen, principalmente o amido. Dessa forma, a determinação da concentração ótima de CNF nas dietas de vacas leiteiras depende de alguns fatores, tais como:

1) Os efeitos da velocidade de degradação do amido sobre a digestão de fibra no rúmen;
2) Características da FDN;
3) Consumo de MS.

Se a degradação ruminal do amido for muito rápida, certamente haverá prejuízo a digestão da fibra. Em nossas condições, em que grande parte das vacas são mantidas em pastagens na maior parte do ano, excesso de fermentabilidade de carboidratos não parece ser um grande problema, mesmo em rebanhos de alta produção, com alta demanda nutricional, pois o alto custo médio dos grãos de cereais em nosso país muitas vezes inviabiliza rações com alto teor de amido. Além disso, a forma mais comum de utilização do milho é na forma moída, muitas vezes com tamanho médio elevado de partículas, de fermentabilidade não tão elevada.

Outro ponto a se considerar é que o milho brasileiro é de textura dura, sendo menos degradável no rúmen que o amido de grãos americanos. O tamanho de partícula das forrageiras ensiladas também é freqüentemente grande, resultado de falhas na moagem, contribuindo positivamente para a efetividade física da fibra, e minimizando o problema de um possível excesso de CNF. Além disso, a presença freqüente de grãos inteiros nas silagens também reduz a disponibilidade do amido no rúmen. O alto teor de fibra das forrageiras, associado ao uso freqüente de subprodutos fibrosos nos concentrados, normalmente resulta em rações onde o teor de FDN total é alto e, conseqüentemente, resulta em teor de CNF abaixo daquele capaz de induzir acidose. O maior problema da vaca brasileira não é acidose ruminal, e sim falta de energia, tanto para os microorganismos do rúmen quanto para o animal.

Também interessante é o fato de que a relação ótima entre amido e fibra na dieta depende da efetividade da fibra. Em dietas com teor relativamente baixo de fibra efetiva, que causam naturalmente uma redução no pH ruminal, a inclusão de amido deve ser mais conservadora, a fim de não prejudicar a digestão de fibra. Já em dietas com teor mais elevado de fibra efetiva, é possível a inclusão de teores mais elevados de amido na MS.

A substituição dos grãos de cereais por concentrados fibrosos, que são pobres em amido, mas bastante ricos em fibra altamente digestível, como é o caso da casca de soja, farelo de glúten de milho e farelo de trigo, especialmente para vacas de produção mais baixa, é perfeitamente possível. Logicamente as características desses subprodutos são muito diferentes, e isso precisa ser considerado quando se formula dietas para vacas leiteiras. Com isso em mente, em dietas que levam subprodutos, os níveis de amido podem ser sensivelmente reduzidos. No entanto, o Dr. Allen mostrou em sua palestra alguns dados de trabalhos de pesquisa em que o uso de subprodutos em substituição ao milho não afetou a produção de leite, mas observou-se um grande efeito negativo sobre peso vivo e escore de condição corporal (ECC). À medida que aumentava a inclusão dos subprodutos em substituição à fonte de amido, as vacas passavam a perder peso e ECC. E é preciso notar que um desses trabalhos foi realizado na Europa, com vacas produzindo em média 18 kg de leite ao dia.

De tudo o que foi exposto neste radar, podemos ficar com as seguintes mensagens: em dietas de vacas de alta produção, a alta inclusão de amido (acima dos 30-35% da MS total) aumenta o teor energético da dieta, mas pode colocar os animais em risco de acidose, o que pode reduzir o CMS, de forma que a ingestão de energia fique comprometida. Quanto maior o teor de fibra efetiva, mais espaço há para se utilizar grãos de cereais, já que nessa condição o animal produz mais saliva, o que equilibra melhor o pH ruminal, prevenindo quedas drásticas no consumo. Quando de utiliza subprodutos fibrosos, é possível se obter níveis adequados de desempenho para vacas de produção mais modesta, mesmo com baixa inclusão de amido (abaixo de 25% da MS total). No entanto é preciso equilibrar bem a dieta, e ficar atento às características de cada subproduto, e à possível perda de peso e ECC com a inclusão dos subprodutos.

Em qualquer situação, a qualidade da fibra é determinante do desempenho. Quanto maior a digestibilidade da FDN da dieta, menor a necessidade de inclusão de grãos. Infelizmente há poucos trabalhos avaliando diferentes teores de amido em dietas de vacas leiteiras mantidas em pastagens, e os poucos dados disponíveis são inconclusivos. De qualquer forma, todos os princípios discutidos aqui são válidos para o manejo alimentar de vacas a pasto, é só usar o bom senso.



 

ALEXANDRE M. PEDROSO

Engenheiro Agrônomo, Doutor em Ciência Animal e Pastagens, especialista em nutrição de precisão e manejo de bovinos leiteiros

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