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Exigência de fibra para vacas em lactação

POR MARINA A. CAMARGO DANÉS

E JÚLIA D. LIMA DIAS

NUTRIÇÃO, FORRAGENS & PASTAGENS

EM 20/10/2016

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*Artigo original MilkPoint Brasil 

A principal vantagem nutricional e económica dos ruminantes é beneficiar-se dos produtos da digestão bacteriana da fibra e da própria massa de bactérias que cresce extraindo energia de fibra. OS animais não possuem as enzimas necessárias para digerir celulose e hemicelulose, os carboidratos componentes da fibra e os mais abundantes na natureza. Essa tarefa é realizada pelas bactérias do rúmen, que vivem em simbiose com o ruminante.

Na alimentação a fibra tem importância energética e fisiológica. O teor de FDN de alimentos e dietas é inversamente relacionado à densidade energética do material. Isso significa que quanto maior o teor de FDN menor será o conteúdo de energia e vice-versa. Apesar disso, os carboidratos que compõem a FDN frequentemente representam de 25 a 35% da matéria seca (MS) de dietas de vacas leiteiras confinadas, fazendo da fibra uma fonte importante de energia para vacas em lactação. Além disso, a fibra é responsável pela manutenção das funções de mastigação, ruminação e motilidade do rúmen.

A motilidade ruminal é uma função vital, ou seja, essencial não só para a digestão, mas para a sobrevivência do ruminante. Portanto, uma certa quantidade de fibra é indispensável em dietas de vacas leiteiras para garantir a função ruminal adequada, a fermentação do alimento e o crescimento microbiano. A quantidade e as características físicas da fibra na dieta têm efeito sobre o pH ruminal, e consequentemente sobre a saúde do animal e sobre o consumo de alimentos. Animais consumindo dietas ricas em concentrados rapidamente fermentáveis e com baixo teor de FDN estão expostos ao risco de acidose ruminal clínica ou subclínica, que prejudicam o desempenho e a longevidade do animal.

A fibra dietética é responsável pela formação do MAT ruminal e estratificação da digesta dentro o rúmen. O MAT é um “colchão” situado abaixo da fase gasosa da digesta ruminal e formado por um emaranhado de partículas flutuantes de alimento, longas e recém ingeridas, em processo de digestão bacteriana. O MAT tem duas funções principais na fisiologia ruminal: controle do pH ruminal por estímulo físico à motilidade, ruminação e salivação; e retenção do alimento recém ingerido para que permaneça no rúmen por tempo suficiente para colonização bacteriana e digestão. A formação do MAT no rúmen depende do tamanho e da gravidade específica (capacidade de boiar) das partículas fibrosas. Assim, a quantidade e características da FDN da dieta de vacas leiteiras afeta diretamente a saúde ruminal e eficiência da digestão.

No entanto, nem toda FDN é igual. Forragens, subprodutos da agroindústria e concentrados têm FDN em sua composição, mas dependendo da origem, as características de fermentação da fibra no rúmen variam. A fibra oriunda de concentrados é finamente moída, o que aumenta sua velocidade de fermentação no rúmen e de passagem para o abomaso e intestinos. A FDN de subprodutos ricos em pectina, como a polpa cítrica é rapidamente degradada no rúmen, em velocidade inclusive superior a do amido. No entanto, a pectina não é substrato para formação de ácido lático no rúmen, como o amido.

A adequação de fibra na dieta é uma tarefa complexa, devido às limitações na determinação das exigências do animal por esse componente. O NRC (2001) propôs recomendações para o balanço entre carboidratos fibrosos (FDN) e não fibrosos, especificando também a exigência mínima por FDN proveniente de forragem como uma medida de efetividade física de fibra. No entanto, essas recomendações são limitadas, pois a fibra proveniente de forragem nem sempre garante efetividade suficiente para promover mastigação e ruminação. Quando a forragem está picada muito finamente, isso pode não acontecer. Essa capacidade da fibra em promover mastigação e motilidade ruminal é chamada de efetividade física, ou FDN fisicamente efetivo (FDNfe).

Portanto, é importante compreender que o fato da FDN de uma dieta vir de forragem não garante sua efetividade física. A fibra longa é o que é essencial para garantir mastigação, salivação e saúde ruminal. No entanto, muita fibra longa afeta negativamente o consumo, pois é digerida mais lentamente, causando enchimento ruminal. Dessa forma, fica claro que uma medida mais adequada de exigência de fibra fisicamente efetiva deve incluir a distribuição do tamanho de partículas.

A combinação de valores de FDN de uma dieta e tamanho de partícula desse FDN para estimar FDNfe é possível utilizando-se o conjunto de peneiras separadoras da PennState. O método consiste em estratificar o tamanho de partículas da amostra da dieta seguindo recomendação das peneiras e analisar o teor de FDN na subamostra retida em cada peneira. A FDN contida acima da peneira de 8 mm é considerada efetivo.

Uma meta-análise recente determinou recomendações para o teor de FDN (% MS) retido nas peneiras acima de 8 mm (Zebelli et al., 2012), levando em consideração não somente manutenção do pH ruminal, como também consumo de MS. Segundo esta análise, a manutenção do pH ruminal começa a ser prejudicada quando o teor de FDN acima de 8 mm passa a ser menor do que 18% MS. Por outro lado, valores acima de 14% MS já começam a afetar negativamente o consumo de MS, como mostra a figura abaixo.

Figura 1. Efeitos do teor de FDN fisicamente efetivo no pH ruminal e consumo de matéria seca. 

Dessa forma, a recomendação resultante dessa meta-análise é que o teor de FDN maior que 8 mm esteja entre 14 e 18% MS, conforme demonstrado na figura 5. O ajuste preciso dentro dessa faixa fica dependente de outras características da dieta relacionadas ao risco de acidose ruminal, principalmente o teor de carboidratos rapidamente fermentáveis no rúmen. Dietas com alto teor de amido e açúcares prontamente fermentáveis devem exigir mais pefFDN para garantir a saúde ruminal do que dietas compostas por ingredientes de lenta degradação. Não há consenso também quanto a influência que a digestibilidade da FDN pode exercer sobre a efetividade física da fibra. Há pesquisas mostrando aumento do pH e tempo de mastigação com fibra de melhor digestibilidade e outras mostrando diminuição desses parâmetros ou nenhum efeito.

Outro ponto importante relacionado às recomendações de Zebelli et al. é que essa análise foi feita principalmente com estudos europeus, que utilizam dietas bem diferentes do que nós utilizamos no Brasil. Enquanto nossas dietas para vacas em lactação são baseadas principalmente em silagem de milho finamente picada, as dietas utilizadas na análise mencionada apresentam alta inclusão de silagens de leguminosas e capins. Com isso, é de se esperar que, por mais que o conceito do tamanho de partículas do FDN seja universal, os valores absolutos da faixa ideal serão diferentes para nossa realidade. Dessa forma, é essencial que estudos nacionais e regionais sejam conduzidos para a determinação dos valores adequados em dietas que representem a realidade de cada região.

Não é simples traçar uma recomendação geral para exigência de fibra longa para vacas leiteiras. Esse aspecto é especialmente desafiador em vacas de alta produção em início de lactação, pois esses animais necessitam de dietas densas em energia, mas sem risco de acidose que pode levar a comprometimento da saúde e produção. A fibra é uma necessidade do ruminante e o balanceamento de fibra para vacas leiteiras exige conhecimento e avaliação rotineira dos resultados do rebanho.

MARINA A. CAMARGO DANÉS

Professora do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Lavras. Engenheira Agrônoma e mestre pela ESALQ/USP. PhD em Dairy Science pela Universidade de Wisconsin-Madison, WI, EUA. www.marinadanes.com

JÚLIA D. LIMA DIAS

Mestranda em nutrição de ruminantes no Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Lavras.
Experiente em consultoria técnica e gerencial de fazendas leiteiras no sul de Minas Gerais.

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