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Qual a melhor estratégia para o maneio das vacas recém-paridas?

POR ALEXANDRE M. PEDROSO

NUTRIÇÃO, FORRAGENS & PASTAGENS

EM 19/02/2015

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*Artigo original MilkPoint Brasil

Um grande levantamento de dados produtivos de vacas leiteiras nos EUA, feito durante um período de 5 anos por uma equipa da Universidade do Minnesota, avaliou mais de 624.000 refugos de vacas provenientes de mais de 5.700 efetivos e mostrou que cerca de 25% destes refugos acontecem nos primeiros 60 dias pós-parto. Ou seja, existe a evidência de que o risco de ocorrência de problemas nesta fase é muito grande.
O parto é o momento mais stressante do ciclo produtivo de uma vaca leiteira. As alterações fisiológicas que os animais enfrentam na preparação para o parto e início de uma nova lactação são enormes e quanto mais produtiva for a vaca, mais complicado é este processo, pois a necessidade de nutrientes para a síntese de colostro e de leite é muito grande. Nesta fase todas as vacas leiteiras entram num período de balanço energético negativo, que tem um grande impacto sobre o desempenho e sanidade do efetivo.

Em função disto, o autor afirma que, no período imediatamente após o parto, o maior objetivo deve ser garantir à vaca as melhores condições para que possa recuperar adequadamente deste evento extremamente stressante, apostando na prevenção da ocorrência de distúrbios metabólicos, para que ela apresente um bom desempenho no período subsequente.

Impor às vacas um ritmo acelerado de produção neste período inicial da lactação é uma estratégia bastante questionável, pois pode representar um desafio ainda maior do que o que elas já têm em função do balanço energético negativo. É sabido que a produção total de uma vaca numa lactação é diretamente dependente do quanto este animal produz no pico de produção, e maximizar a produção no pico é o objetivo de todas as explorações. Mas, será que devemos tentar alcançar este objetivo a todo custo? Até porque, se a vaca sofrer algum distúrbio metabólico neste período, a produção no pico certamente será bastante comprometida.

O autor entende que a melhor estratégia nas primeiras 3 semanas pós-parto é focar a recuperação hormonal e a sanidade das vacas. Se forem proporcionadas as condições adequadas para as recém-paridas recuperarem adequadamente do parto, procurando a maximização da ingestão de matéria seca (IMS), com menor stresse metabólico, num segundo momento elas poderão expressar todo o seu potencial produtivo e, possivelmente, a ocorrência de distúrbios metabólicos será muito menor. Além disto, muito provavelmente, retornarão mais cedo à atividade éstrica, o que contribuirá decisivamente para a melhoria da eficiência reprodutiva.

Com a proximidade ao parto, o metabolismo da vaca passa a sofrer uma série de alterações hormonais que preparam o animal para o mesmo. Em simultâneo ocorre uma redução na ingestão voluntária de alimentos, o que caracteriza o problema mais crítico das vacas nessa fase, sendo um dos aspectos mais importantes do maneio de vacas em transição. Esta queda no consumo, associada ao aumento nas exigências energéticas para atender às necessidades do feto e, posteriormente, da síntese do colostro que se inicia nos dias que antecedem o parto, coloca as vacas na condição de balanço energético negativo (BEN), no qual a necessidade energética passa a ser maior que a quantidade de energia disponível. Esta condição permanece no início da lactação, o que complica bastante o maneio das vacas nesta fase. Acredita-se que esta queda na ingestão de alimentos tenha relação direta não só com as alterações hormonais que ocorrem neste período, mas também com o próprio crescimento do feto, que passa a ocupar mais espaço na cavidade abdominal, comprimindo o aparelho digestivo.

Estas mudanças fisiológicas que ocorrem no Período de Transição resultam em grandes dificuldades para a vaca, da mesma forma que o maneio dos animais nesta fase representa um grande desafio para os técnicos e para os produtores. Além do aumento no tamanho do feto, nos dias que antecedem o parto, a vaca começa o processo de síntese do colostro, o que determina um grande aumento na necessidade de glicose, aminoácidos e outros nutrientes. O grande problema é que esse aumento não é compensado por um maior consumo de alimentos, muito pelo contrário. Com isto, a vaca entra em BEN e fica muito mais suscetível aos distúrbios metabólicos no início da lactação.

Para que as vacas iniciem bem a nova lactação, um aspecto muito importante do maneio pré-parto é tentar minimizar os efeitos da redução do consumo. A ideia é compensar, de alguma maneira, esta queda na ingestão de alimentos, de forma que o consumo de nutrientes, especialmente energia, não seja tão prejudicado. Uma série de problemas decorre da baixa ingestão de matéria seca, de entre os quais três são considerados fatores de risco elevado:

• Baixa IMS leva à mobilização de gordura que, se for excessiva, pode levar à síndrome do fígado gordo, com subsequente desenvolvimento de cetose, prejudicando o funcionamento do fígado;
• Baixa IMS prejudica o sistema imunitário, o que aumenta o risco de ocorrência de mastites e metrites;
• Baixa IMS faz com que o rúmen fique vazio, o que aumenta muito o risco de Deslocamento de Abomaso.

É importante lembrar que as vacas requerem quantidades (kg) de nutrientes, e não percentagens. Tem pouca utilidade saber qual o teor de energia ou proteína bruta da dieta. O que importa, de facto, é quantas calorias ou kg de proteína metabolizável foram disponibilizados pelo total de matéria seca ingerida.
Uma vez que a IMS ainda é reduzida no período de transição, uma estratégia lógica é aumentar a oferta de concentrados para as vacas no pré-parto, especialmente fontes de hidratos de carbono não fibrosos (CNF), como milho, sorgo, polpa de citrinos, etc. Mas o ideal é oferecer forragens de altíssima qualidade, com alta digestibilidade, de forma que a ingestão de energia seja elevada, sem impor à vaca riscos significativos de sofrer acidose, por exemplo. Aumentar um pouco a oferta de CNF, juntamente com o fornecimento de uma forragem de alta digestibilidade, é a melhor alternativa.

Após o parto, todo esforço dispendido no sentido de monitorizar frequentemente as vacas recém-paridas é importante. Nesta fase de adaptação à nova lactação, na qual estão altamente suscetíveis aos distúrbios metabólicos, as vacas estão também com o sistema imunitário deprimido e, uma vez que não conseguem comer tudo o que necessitam, precisam de mobilizar reservas de gordura para atender à necessidade energética. Enfim, estão numa situação bastante stressante. Se juntarmos as vacas recém-paridas num lote específico, podemos monitorizar a sua rotina com mais atenção, facilitando a identificação de problemas antes que o prejuízo seja grande.

O foco do maneio das vacas nos primeiros 20-30 dias de lactação deve ser no conforto e na sanidade. Não importa o sistema de produção – intensivo ou extensivo –, as vacas recém-paridas necessitam de receber cuidados especiais. O conforto nas instalações onde irão ficar alojadas é fundamental. Manter a saúde do rúmen também, devendo as dietas ser menos agressivas do que as do lote de alta produção. Se a forragem for exclusivamente silagem de milho, é altamente recomendável inserir alguma fonte de fibra longa – feno, bagaço de cana, etc. – para estimular a ruminação e a salivação, pois a fração fibrosa da silagem de milho pode ser de alta digestibilidade, com pouca efetividade física para estimular estas duas actividades.

Outro ponto interessante é o uso de gordura suplementar para este grupo, para fornecer mais energia. É uma estratégia interessante, mas devem ser tomados alguns cuidados, pois gordura em excesso pode reduzir o consumo, o que é desastroso nessa fase. As fontes de gordura insaturada, normalmente interferem muito mais no consumo, de modo que o uso de grãos de oleaginosas, como a soja ou o algodão, deve ser analisado com muito cuidado, respeitando os limites de inclusão recomendados.

Em relação à nutrição proteica, o autor tem defendido enfaticamente a redução nos níveis de proteína bruta (PB) das dietas e, neste caso, não é diferente. Isto não significa dar menos proteína para as vacas, mas sim, fazer um balanceamento mais rigoroso das dietas. Os excessos devem ser evitados, mas é preciso atender corretamente aos requerimentos das vacas. A grande questão é que estes requerimentos não são por proteína bruta, mas sim por proteína metabolizável. O foco na manutenção da saúde ruminal está totalmente alinhado com o foco na maximização da síntese de Proteína Microbiana (PMic), que é a principal componente da fração PM. Para tal, a produção de PMic depende diretamente da disponibilidade de PDR.

Se o maneio nestes primeiros 20-30 dias pós-parto for feito dentro deste conceito, focado no conforto e na sanidade das vacas, especialmente na saúde do rúmen, as vacas terão uma condição muito mais favorável para responderem muito bem quando entrarem no lote de alta produção.

ALEXANDRE M. PEDROSO

Engenheiro Agrônomo, Doutor em Ciência Animal e Pastagens, especialista em nutrição de precisão e manejo de bovinos leiteiros

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