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Uso de probióticos na alimentação de bovinos leiteiros

POR ALEXANDRE M. PEDROSO

NUTRIÇÃO, FORRAGENS & PASTAGENS

EM 02/05/2014

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Foto: Cadalu Jersey
* Artigo original do MilkPoint Brasil

O interesse pelo uso de probióticos como aditivos para melhorar o desempenho dos animais tem crescido bastante, em grande parte devido à também crescente pressão pela redução do uso de antibióticos nos sistemas de produção, especialmente na Europa. De maneira geral, há um censo comum de que os probióticos são mais “naturais”, o que tem sido um apelo significativo para estimular o seu uso em fazendas leiteiras. No entanto, em minha opinião, há muita desinformação a respeito da natureza e propriedades dos aditivos probióticos. Há uma infinidade de produtos disponíveis no mercado, com modos de ação bastante diversificados de forma que é fundamental entender um pouco mais sobre essa classe de produtos. Particularmente, entendo que conceitualmente os probióticos são bastante promissores e podem ocupar um papel de destaque em promover melhor desempenho e eficiência nas fazendas, mas ainda há muito o que se estudar e aprender sobre esses produtos.

Classicamente os probióticos são definidos como “microrganismos vivos que, se ingeridos por um animal, podem afetá-lo positivamente melhorando o equilíbrio da microflora intestinal”. Recentemente, pesquisadores europeus propuseram a seguinte definição: “culturas isoladas ou mistas de microrganismos vivos que, quando administrados a um animal ou humano, o beneficiam através da melhora das propriedades da microflora nativa”. Essa segunda definição é mais específica e não se limita à microflora intestinal apenas. Segundo o MAPA, em nosso país os probióticos enquadram-se como aditivos zootécnicos equilibradores da microbiota do trato digestório e são definidos como cepas de microrganismos vivos (viáveis), que agem como auxiliares na recomposição da microbiota do trato digestivo dos animais, diminuindo o número dos microrganismos patogênicos ou indesejáveis.

Nós, humanos, consumimos esses aditivos há centenas de anos com a finalidade de promover melhor saúde. Um exemplo simples de probióticos largamente utilizados por nós são os iogurtes e produtos lácteos fermentados, ricos em microrganismos que podem melhorar nosso processo digestivo. Os principais aditivos probióticos comerciais para ruminantes incluem bactérias do gênero Lactobacilli, como o Lactobacillus acidophilus e várias espécies de Bifidobacterium, Enterococcus e Bacillus, e ainda leveduras como Saccharomyces cerevisiae e boulardii.

Os mecanismos de ação dos probióticos no organismo animal ainda não são totalmente claros, porém acredita- se que estes apresentam pelo menos quatro diferentes mecanismos que resultam em benefícios ao desempenho dos animais, tais como a competição por nutrientes ou por sítios de ativação enzimática, a síntese de compostos (bacteriocinas) que funcionam como antibióticos naturais contra microrganismos patogênicos, a estabilização do pH ruminal e a estimulação do sistema imune.

Dentre os possíveis efeitos da ação dos probióticos em bovinos leiteiros, os mais relatados na literatura especializada são:

• Redução da ocorrência de diarreia em bezerros;
• Aumento no ganho de peso de animais em crescimento e terminação;
• Prevenção da acidose ruminal;
• Melhor degradação de fibra no rúmen;
• Aumento na produção de leite e sólidos do leite.

É preciso muito cuidado e critério ao avaliar resultados de pesquisas com probióticos, pois estes ainda são bastante inconsistentes. Como eu citei anteriormente, trata-se de tecnologia bastante promissora, mas ainda há muito o que se estudar sobre o tema. Aparentemente, os efeitos benéficos mais significativos dos probióticos são observados em animais submetidos a algum grau de stress, como é o caso de bezerros na fase inicial de vida ou vacas leiteiras no período de transição.

Os primeiros dias de vida e o período do desaleitamento são épocas críticas para os bezerros, nas quais há muitas evidências dos benefícios dos probióticos bacterianos. Os recém nascidos apresentam elevado grau de stress pela sua nova condição e novo ambiente, o que pode alterar bastante o perfil da microflora do trato digestório. Via de regra, bezerros com diarreia apresentam menor população de lactobacilos nos intestinos, de forma que a suplementação de produtos contendo esse tipo de bactérias para animais nessa fase pode ajudar bastante a reduzir a incidência de diarreias, que são a principal causa de mortalidade precoce de bezerros nas fazendas leiteiras.

O período do desaleitamento também é complicado para os bezerros, pois sua dieta muda significativamente. Nessa situação, o papel dos probióticos bacterianos seria colonizar o intestino dos animais, prevenindo a colonização por patógenos causadores de diarreia. Pesquisas realizadas com animais monogástricos mostram com clareza que probióticos bacterianos podem alterar a permeabilidade da mucosa intestinal, ativar células do sistema imune e dificultar a aderência de patógenos à parede dos intestinos.

De maneira geral, o ácido lático produzido pelas bactérias probióticas cria um ambiente ácido no lúmen intestinal que é bastante desfavorável para a maior parte dos patógenos. Além disso, a produção das bacteriocinas (toxinas produzidas por algumas bactérias para inibir o crescimento de microrganismos indesejáveis) também ajuda a manter a saúde intestinal.

Além do feito nos intestinos, os probióticos também podem atuar no rúmen, onde a flora microbiana é bastante diferente. Esses aditivos podem ser especialmente eficazes para situações em que há alterações significativas nessa população de microrganismos, como é o caso de vacas no período de transição que passam por alterações significativas na composição da dieta que ingerem diariamente. Com o aumento no consumo de concentrados no início da lactação há uma clara tendência de redução nos valores do pH ruminal, uma vez que esses alimentos são ricos em carboidratos não fibrosos, rapidamente degradáveis no rúmen, gerando grandes quantidades de ácidos no meio. O abaixamento do pH é especialmente danoso para os microrganismos que degradam fibra. Infelizmente não há muitos dados sobre esse efeito específico em vacas leiteiras, pois a maioria dos trabalhos de pesquisa que avaliaram o potencial dos probióticos para controlar a acidose ruminal foram realizados com bovinos de corte. Vários trabalhos mostram um efeito positivo desses aditivos em estabilizar o pH do rúmen, mas outros não conseguiram mostrar o mesmo resultado. Há muitos estudos em andamento sobre esse tema, testando desde produtos contendo espécies de bactérias que removem o ácido lático do rúmen até outros com linhagens de microrganismos que degradam amido sem produzir o ácido lático, que é o grande vilão responsável pela acidose aguda. Pelos dados disponíveis, os resultados parecem animadores, mas ainda não podem ser considerados conclusivos.

Com relação ao efeito direto sobre produção e composição do leite, as pesquisas são bastante limitadas. Há relatos de aumentos de até 2 kg de leite/vaca/dia com o uso de probióticos, com efeitos variáveis sobre o consumo de alimentos e a composição do leite. Vários podem ser os mecanismos pelos quais o uso de probióticos estimula a produção de leite, pois os efeitos benéficos dos mesmos já relatados podem melhorar a saúde dos animais como um todo, refletindo em aumento na produção. Possíveis aumentos nos teores sólidos do leite podem estar diretamente relacionados com mudanças no perfil de fermentação ruminal, resultando em mudanças nas concentrações de ácidos graxos de cadeia curta, como acetato e propionato, o que pode resultar em alterações na síntese de sólidos do leite, especialmente gordura.

Apesar de o uso de probióticos bacterianos estar se tornando cada vez mais popular, o uso de produtos à base de leveduras ainda é muito mais comum. O papel mais importante e reconhecido desses produtos é aumentar a taxa de estabelecimento de microrganismos celulolíticos no rúmen, favorecendo a degradação dos alimentos fibrosos. Isso é especialmente importante porque a celulose, principal componente da fibra, pode representar até 30% da matéria seca total consumida pelas vacas. As leveduras podem estimular o crescimento dos organismos que degradam celulose no rúmen e estimular a sua atividade enzimática, apesar de a maioria dos resultados de pesquisa ter sido originada em estudos conduzidos em laboratórios. Acredita-se que o efeito principal das leveduras seja a remoção de oxigênio do rúmen, que é extremamente prejudicial para a população celulolítica. Além disso, também acredita-se que as leveduras possam produzir vitaminas, ácidos orgânicos e aminoácidos essenciais para o crescimento das bactérias que degradam fibra. Da mesma forma que para os produtos bacterianos, os efeitos positivos das leveduras tendem a ser muito mais pronunciados em animais submetidos a desafios mais intensos.

Os probióticos têm apresentado potencial para melhorar a saúde e desempenho de bovinos leiteiros, porém, seus mecanismos de ação ainda não são totalmente compreendidos, sendo necessários mais estudos para podermos fazer recomendações mais seguras. Outro ponto que dificulta o entendimento dos efeitos é o conhecimento limitado que ainda temos sobre o perfil dos microrganismos ruminais, bem como de seus requerimentos biológicos. A variabilidade observada nos resultados de pesquisas pode estar relacionada à falta de consenso quanto à dosagem, tipo de microrganismo ou forma de fornecimento, possivelmente por causa da grande diversidade de produtos à disposição no mercado. Outra questão que deve ser vista com cuidado é a viabilidade econômica destes produtos, que é de fundamental importância para a disseminação desta tecnologia nas fazendas leiteiras.
 

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ALEXANDRE M. PEDROSO

Engenheiro Agrônomo, Doutor em Ciência Animal e Pastagens, especialista em nutrição de precisão e manejo de bovinos leiteiros

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