
De acordo com os dados não publicados e recolhidos no último recenseamento da população, realizado pelo Instituto nacional de Estatística (INE) no ano de 2011, constata-se que para uma desagregação de 130 profissões, e considerando as profissões relacionadas com a agricultura e mais concretamente, com a produção animal, o setor é ainda extremamente masculinizado. Assim, considerando um grupo de profissões, de entre as quais se destacam diretores de produção na agricultura, produção animal, flores e pesca, veterinário, técnico e assistente de veterinários, produtores e trabalhadores qualificados na criação animal, agricultor e trabalhador qualificado da agricultura e produção animal combinadas, orientadas para o mercado, agricultor de subsistência, criador de animais de subsistência e agricultor e criador de animais de produção combinada, de subsistência,
existe um total de 77.295 profissionais, dos quais 53.164 são homens e 24.131 são mulheres, isto é, existe uma taxa de masculinização do setor de 69%, o que evidencia uma desigualdade ao nível da distribuição entre sexos nas diversas profissões consideradas.
Tal como diversas investigações demonstram, esta forte masculinização do setor é, simultaneamente, causa e consequência de assimetrias que se evidenciam prejudiciais à igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, quer no acesso, quer na permanência no mercado de trabalho, e na progressão dentro deste grupo de profissões. Por outro lado, se observarmos mais atentamente, esta masculinização é ainda maior no caso dos diretores de produção animal na agricultura, produção animal, floresta e pesca, atingindo um valor de 76% de homens contra apenas 24% de mulheres a ocupar cargos de direção. Não obstante, ao observarmos os valores constantes na profissão de veterinário, essa tendência inverte-se, sendo esta uma profissão feminizada (59% de mulheres e 41% de homens). Esta tendência, numa profissão que envolve uma licenciatura, é congruente com o aumento da escolaridade das mulheres nas últimas décadas, não se refletindo de forma proporcional, no entanto, ao nível da progressão profissional e da igualdade salarial.
Este é também um setor profissional em que existe ainda uma grande tradição, uma vez que a ligação à terra é ainda uma constante, o que se repercute na tipologia e forma de organização das empresas, que têm caraterísticas assumidamente tradicionais e familiares.
O último inquérito realizado pelo Instituto Nacional de Estatística e coordenado por Perísta e colaboradores (2016) aponta para a manutenção na desigualdade da repartição entre os tempos de trabalho remunerado e não remunerado. Segundo este documento, e considerando como pessoas que têm uma atividade profissional todas aquelas que exercem um trabalho ou uma profissão, pessoas que realizam um trabalho não remunerado para um negócio/exploração agrícola da família, e ainda as pessoas que se encontram a desenvolver estágio profissional,
“o tempo dedicado, em média, no último dia útil, ao trabalho não pago é de 4 horas e 17 minutos para as mulheres, e de 2 horas e 37 minutos para os homens” (Perista & colaboradores, p. 10, 2016). Ou seja, apesar de se poder observar uma redução no tempo de trabalho não remunerado entre homens e mulheres que desenvolvem atividade tradicional, os valores encontram-se ainda muito distantes de uma situação que se possa chamar de equitativa entre os sexos. Apesar de não existir nenhuma investigação direcionada para o uso do tempo, entre homens e mulheres, que envolva exclusivamente os trabalhadores agrícolas e, mais concretamente, as micro explorações, estima-se que, devido à já mencionada tradicionalidade do setor, esta situação seja ainda mais gravosa, sendo também uma constatação a lacuna de investigação dentro desta área de atividade tão específica e dotada de tantas particularidades.
Referências:Perista, H., Cardoso, A., Brázia, A., Abrantes, M., Perista, P., & Quinta, E. (2016). Os usos do tempo de homens e de mulheres em Portugal – Policy Brief. Lisboa: Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego.
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