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Maneio da nutrição na época da secagem

POR BEATRIZ ORTOLANI

BEM ESTAR & GESTÃO

EM 13/05/2015

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*Artigo Original MilkPoint Brasil

A curva de lactação depende, entre outros, do número de células mamárias e da capacidade de secreção por célula, e, toda atividade de maneio durante o período seco que estimula o desenvolvimento mamário pode melhorar o desempenho da lactação nas vacas leiteiras.
A nutrição das vacas secas é, em muitas explorações, dividida em duas partes: fase 1 (período seco inicial ou far-off) e fase 2 (pré-parto ou close-up). No entanto, modelos recentes partem do princípio de que as exigências de nutrientes para a prenhez são relevantes apenas nos últimos 3 meses de gestação e negligenciam o efeito potencial de longo prazo da nutrição materna nas crias, apesar de as atuais evidências sugerirem que o fornecimento de nutrientes e os sinais hormonais em janelas específicas durante o desenvolvimento, tanto pré-natal como no início do pós-natal, podem causar alterações permanentes no metabolismo da vitela. Além disso, não levam em conta a interação entre o status metabólico de nutrientes e a função imune.

Este artigo revê os motivos pelos quais a nutrição das vacas secas foi dividida em duas fases e propõe o uso de um único arraçoamento durante todo o período seco.

Secagem

Com o aumento da produção leiteira, a secagem tornou-se um período desafiador para as vacas e para os produtores. O período seco é importante para a otimização da produção de leite na lactação seguinte, sobretudo nas primeiras 3 semanas.

Durante este período, as vacas ficam altamente suscetíveis a novas infecções intramamárias. Depois de concluída a involução das glândulas mamárias, elas tornam-se muito mais resistentes a novas infecções, devido ao baixo volume de líquido no úbere criando um meio desfavorável para o crescimento de bactérias. A prática comum de secagem entre os produtores envolve a redução drástica do fornecimento de ração nos dias que antecedem a secagem. Embora este método seja eficaz para secar a vaca, tal redução pode causar problemas metabólicos, especialmente para vacas de alta produção. Ademais, a função imune é comprometida. Vacas que consumiram feno seco durante 5 dias na pré-secagem apresentaram uma queda na proliferação de células mononucleares (células do sistema imunitário) no sangue periférico e da produção de IL-4. Assim sendo, recomenda-se fornecer uma dieta equilibrada durante todo o processo de secagem a fim de minimizar os impactos negativos no sistema imunitário e, portanto, o risco de desenvolver mastite.

Preparação para a parto

Desde o início da década de 1990, e principalmente após a publicação do modelo do NRC em 2001, as vacas no terço final da gestação consomem rações com níveis altos de energia no período de pré-parto, com o objetivo de 1) compensar a suposta queda do consumo alimentar com a proximidade do parto, 2) minimizar a mobilização de gordura corporal, cetose e fígado gordo pós-parto, 3) adaptar a microflora ruminal para as rações concentradas de alto valor nutricional e 4) promover o desenvolvimento das papilas ruminais para minimizar o risco de acidose durante a lactação pela melhoria na absorção dos ácidos gordos voláteis no rúmen.

Parece que os dois primeiros objetivos não são atingidos com o fornecimento de dietas com alta energia de pré-parto. Estas dietas não limitam fisicamente o consumo das vacas, resultando num sobreconsumo de energia. Janovick et al. (2011) descreveram que o consumo de dietas volumosas com uma baixa densidade de energia no pré-parto melhorou o status metabólico no pós-parto e reduziu a incidência de problemas de saúde. Graunard (2013) relatou que vacas que receberam um excesso moderado de ração durante o período pré-parto apresentaram uma resposta imune alterada e maior susceptibilidade para sofrer de lipidose hepática do que as que receberam dietas com baixo teor de energia. O fornecimento de dietas com baixo teor de energia no pré-parto, provoca um aumento do consumo de matéria seca no pós-parto e um consequente aumento da produção de leite além de minimizar o risco de balanço energético negativo. Portanto, a opinião do autor, baseada nas mais recentes investigações, é que a recomendação de dietas com alto teor de energia durante o período seco, principalmente no período próximo ao parto, pode ser prejudicial à saúde das vacas ou no mínimo desnecessária, visto que a densidade energética muito menor é suficiente para atender as necessidades das vacas prenhas no terço final da gestação.

O terceiro objetivo (adaptação da microflora ruminal a dietas com alto teor de amido) também é discutível. A grande maioria dos microorganismos presentes no rúmen são bactérias, que conseguem duplicar a sua população em apenas 20 min. Portanto, as 3 semanas atualmente preconizadas, parece ser tempo demais para uma a mudança se firmar em termos de tempo de vida das bactérias. De facto, Fernando et al. (2014) concluíram em novilhos, que uma semana após a alteração de pastagem para ração com alto teor de grãos apresentaram mudanças significativas na população microbiana no rúmen.

Por último, o desenvolvimento das papilas ruminais, também é questionável. Em estudos em que forragem foi substituída por cevada na dieta de vacas leiteiras no último terço da gestação, as características das papilas ruminais não foram afetadas  nem o desempenho em lactações posteriores. Reynolds et al., 2004, demonstrou que numa dieta com alto teor de fibra comparada com a mesma dieta com a adição de 800 g/dia de cevada no período pré-parto, a massa total das papilas ruminais retiradas do assoalho do saco cranial não foi afetada pelas dietas de transição, mas o número apresentou tendência para ser maior com a adição da cevada, o que foi associado à redução acentuada da largura média, que resultou numa menor área de superfície média. Assim sendo, parece que não seria necessário "adaptar" as papilas ruminais pré-parto com o fornecimento de dietas ricas em amido.

Entretanto, há outros motivos para oferecer dietas especiais pré-parto. Entre estas razões está a de minimizar a incidência de hipocalcemia e de edema no úbere. Vacas leiteiras têm entre 2 e 4 g de cálcio no sangue, sendo que metade disso se encontra na forma ionizada. No primeiro dia de lactação, a síntese e a secreção de colostro impõem perdas significativas de cálcio equivalentes a 7 a 10 vezes a quantidade presente na corrente sanguínea. A incidência de hipocalcemia clínica pós-parto varia entre 3,5% nos EUA e na Austrália e 6% na Europa; mas a ameaça para o gado leiteiro reside nos casos subclínicos, estimados em cerca de 50%. Vacas com febre do leite apresentam maior risco de desenvolver outros problemas periparto, inclusive distocia e cetose, deslocamento do abomaso, prolapso uterino e retenção placentária. Ademais, vacas com hipocalcemia apresentam maiores concentrações plasmáticas de cortisol, menor proporção de neutrófilos com atividade fagocítica e comprometimento da resposta das células mononucleares a estímulos ativadores de antigénios. Esta redução da resposta imune vincula a hipocalcemia à metrite e à mastite. Portanto, prevenir ou minimizar a incidência de hipocalcemia deve ser uma questão prioritária na alimentação de vacas leiteiras no período pré-parto.

As estratégias para minimizar a hipocalcemia consistem em fornecer:

1) ração com sais aniónicos,
2) dietas com baixo teor de cálcio.

As dietas para vacas secas com alto teor de potássio, sódio ou ambos alcalinizam o sangue e aumentam a suscetibilidade de desenvolver febre do leite. Já se sabe há muitos anos  que é possível prevenir a hipocalcemia com a adição de aniões na dieta pré-parto. Dietas àcidas melhoram a hipocalcemia de vacas recém-paridas, ao estimularem a mobilização de cálcio pré-parto através aumento da absorção deste elemento e de sua reabsorção pelos ossos. Na suplementação da ração com aniões pré-parto, deve monitorar-se o pH da urina. Em vacas Holstein, a adição eficaz de aniões reduziu o pH da urina para 6,8. A segunda estratégia para minimizar a hipocalcemia, como dito acima, consiste em limitar a quantidade de cálcio na dieta pré-parto para forçar a vaca a iniciar mecanismos de mobilização de cálcio bem antes do parto. Dietas com menos de 15 g/dia de cálcio por no mínimo 10 dias pré-parto reduzem a incidência de hipocalcemia.

Pelo exposto, podemos facilitar o maneio utilizando uma única dieta durante todo o período seco garantindo o controlo sobre a hipocalcemia e os seus desdobramentos. Novas tecnologias que visem à rápida secagem, sem a necessidade de causar stress alimentar à vaca serão determinantes para o uso dessa dieta única.

Texto adaptado do Dr. Alex Bach (ICREA & IRTA, Espanha) apresentado durante evento Secagem, onde tudo começa em Barcelona.

BEATRIZ ORTOLANI

A Ceva vai revolucionar o manejo de secagem no mundo

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