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Adaptações hormonais de vacas leiteiras no período de transição

O período de transição é crítico para a saúde da vaca leiteira. Apesar da maioria delas ser capaz de responder ao desafio metabólico sem dificuldade, em média, uma de cada duas ou três vacas sofre algum problema de saúde no período de transição, principalmente nas duas primeiras semanas de lactação. Isto é resultado dos desafios em se adaptar à lactação que se inicia, gerando desequilíbrios fisiológicos, que culmina com um alto risco de um complexo de problemas digestivo, metabólico e infeccioso. Esse é um período marcado por mudanças nutricionais, metabólicas, imunológicas e hormonais.

As alterações hormonais ocorrem em diferentes padrões durante o período de transição com o objetivo de preparar a vaca para o parto e a lactação. Já antes do parto, o desenvolvimento da glândula mamária, a produção de colostro e o início da produção de leite desencadeiam grandes alterações no úbere. Além disso, nas últimas três semanas de gestação, a canalização de nutrientes para o feto alcança o seu máximo e a ingestão de matéria seca (IMS) diminui de 10 a 30% comparada ao início do período seco. Dessa forma, as mudanças no estado endócrino (hormonal) e a redução na IMS no final da gestação exercem influência sobre o metabolismo.

O sistema endócrino, juntamente com os sistemas nervoso e imunitário, desempenha um papel importante na regulação metabólica e partição de nutrientes. Essa regulação é necessária para manter o organismo em equilíbrio mesmo quando o ambiente em que o animal se encontra apresenta grandes desafios. Isto é conhecido como homeostase, ou seja, a manutenção do equilíbrio em relação ao ambiente de minuto a minuto.

A vaca, ao passar pelo período de transição sofre invariavelmente algum grau de mobilização corporal, ou balanço energético negativo e experimentos que tentaram cessar a mobilização corporal não têm tido sucesso. Esse fenómeno não é exclusivo das vacas de leite, pois em quase todas as espécies de mamíferos a mãe sacrifica parte de suas reservas corporais para produzir o leite e alimentar a cria. Essas observações demonstram existir um controle genético que coordena o perfil hormonal da vaca no período de transição e o direciona para a mobilização de reservas corporais, priorizando a produção de leite. Essas mudanças coordenadas no metabolismo são resultado da evolução das espécies e necessárias para auxiliar o animal a se adaptar a novos estados fisiológicos, como ocorre do estágio de gestante para lactante. Esse processo ocorre ao longo de dias ou semanas e é chamado de homeorrexia.

Ao selecionar vacas com produções de leite cada vez maiores, a regulação endócrina foi alterada, assim como os mecanismos de utilização de nutrientes pela glândula mamária, de forma a priorizar a produção. Dessa forma, o organismo utiliza fontes alternativas para suprir suas exigências, como por exemplo, a quebra de gordura corporal e proteína muscular, fornecendo energia para o animal e glicose para a síntese do leite.

Dentro das hormonas envolvidos no metabolismo de vacas leiteiras no período de transição, destacam-se a hormona do crescimento (GH), insulina, catecolaminas, glucocorticoides, progesterona e estrógeneos. Todas eles desempenham funções específicas durante esse período que favorecem a mobilização metabólica da vaca para produzir leite.

A hormona de crescimento (GH) ou somatotropina desempenha um papel fundamental na coordenação homeorrética da utilização de reservas corporais. No parto, as suas concentrações encontram-se aumentadas, facilitando a libertação de energia dos adipócitos (células que armazenam gordura). Mudanças similares ocorrem no músculo, onde ocorre proteólise (quebra de proteína) e os aminoácidos oriundos desse processo contribuem como fonte para a formação de glicose e de proteína do leite, principalmente nas duas primeiras semanas após o parto.

Muitas hormonas exercem a sua função ao se ligarem a receptores na superfície de células, o que é o caso da GH. No fígado, a GH estimula a secreção de fator de crescimento semelhante à insulina (IGF-I), que em situações fisiológicas normais, altas concentrações de IGF-I e do próprio GH inibem a sua libertação. No entanto, em situações de alta mobilização de nutrientes, como durante o período de transição, a inibição da liberação de GH pelo IGF-I não ocorre, havendo diminuição da circulação total de IGF-I e elevação das concentrações de GH pela sua contínua liberação. Além disso, as vacas nessa fase tem menor número de receptores de GH nos hepatócitos, reduzindo em aproximadamente 70% a concentração de IGF-I. Tudo isso ocorre como um mecanismo homeostático, permitindo a mobilização de tecidos corporais, numa fase em que a ingestão de matéria seca encontra-se abaixo do necessário para fornecer os nutrientes requeridos para a produção.

No tecido adiposo, a hormona do crescimento inibe a ação da insulina, criando-se um estado de resistência à insulina. A insulina é uma hormona que estimula o armazenamento de gordura, contrariando as ações do GH. Os baixos níveis de insulina e a menor resposta desta hormona pelos tecidos muscular e adiposo (resistência à insulina) ocorrem simultaneamente no início da lactação, sendo esse comportamento exacerbado em vacas selecionadas para alta produção de leite, as quais sofrem maior resistência à insulina e acabam por ter maior mobilização de gordura corporal.

A maior parte das células do organismo necessita da insulina para poder captar a glicose circulante e utilizá-la. As principais excepções são as células do sistema nervoso como os neurónios e as células da glândula mamária. Isso possibilita que essas células possam captar a glucose sanguínea mesmo em situações de escassez desse nutriente quando as concentrações de insulina estão baixas. Nesse cenário de altas concentrações de GH e baixas concentrações de IGF-1 e insulina, a absorção de glicose pelos tecidos extramamários é dificultada, conservando glicose para a síntese do leite.

Com o avanço da lactação, os níveis de insulina aumentam, a produção de leite reduz e o consumo de alimento retorna ao normal. Dessa forma, a vaca ganha condição corporal. Depois, tanto a insulina quanto IGF-I, agem diretamente no ovário e aumentam a sensibilidade a hormonas ligadas à reprodução, podendo ser responsáveis por mediar efeito da condição corporal no retorno à atividade reprodutiva da vaca.

As catecolaminas, tais como adrenalina e noradrenalina, são hormonas relacionados com o stress e agem como potentes estimuladores da quebra de gordura. Além disso, o cortisol, o glicocorticóide endógeno predominante em bovinos, tem suas concentrações sanguíneas baixas durante a gestação até imediatamente antes do parto, quando eles apresentam um pico e podem permanecer elevados até a terceira semana após o parto. No sangue, os glicocorticóides encontram-se ligados a uma proteína, a globulina ligadora de corticosteróide (CBG), que os inativam, no entanto, durante o período periparto, a CBG diminui e os glicocorticóides livres aumentam. A elevada secreção de glicocorticóides no período periparturiente é associada com supressão do sistema imune, que pode contribuir com a maior incidência de doenças no período de transição. O cortisol também é um indicador de stress e estimula a libertação de glicose para a corrente sanguínea.

No período periparturiente, ocorre um rápido declínio na secreção de progesterona enquanto as concentrações de estrógeno encontram-se elevadas ao final da gestação e diminuem acentuadamente. A progesterona é citada por inibir diversas funções de leucócitos, relacionando-se à prevenção da rejeição fetal durante a gestação, considerada, portanto, um hormônio imunossupressor. Já o estrógeno, é um importante fator contribuinte para a diminuição do consumo próximo ao parto. Esses hormônios, consequentemente, justificam, em parte, o desafio imunológico e metabólico que esses animais enfrentem durante esse período.


Adaptado de O’Diam et al. (2011)

Portanto, diversas hormonas estão envolvidas, de forma complexa, nas adaptações fisiológicas que as vacas leiteiras passam durante o período de transição. No entanto, eles representam um grande desafio metabólico e imunológico para esses animais, especialmente para as vacas de alta produção. Dessa forma, medidas que proporcionem melhores condições de saúde à vaca são necessárias.
 

ELIAS JORGE FACURY FILHO

ANTONIO ULTIMO DE CARVALHO

RODRIGO MELO MENESES

Possui graduação em Medicina Veterinária e especialização em Clínica e Cirurgia de Grandes Animais pela UFV. Mestre em Ciência Animal pela UFMG e atualmente é aluno de doutorado nessa instituição.

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TERESA VALENTE

MÉDICO VETERINÁRIO

EM 28/01/2016

Artigo sucinto no entanto objetivo e esclarecedor!