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Alterações comportamentais nas vacas acometidas por mastite clínica

* Artigo Original MilkPoint Brasil,

Por Renata de Freitas Leite* e Marcos Veiga dos Santos

A mastite bovina, processo inflamatório da glândula mamária, é uma das doenças que mais afeta os efetivos leiteiros. Vacas acometidas por esta doença desenvolvem um comportamento doente, que se manifesta por meio de uma série de alterações fisiológicas e comportamentais para se conseguir a recuperação da glândula mamária.

Dentre os sintomas gerais deste comportamento, podem ser citados: a) alterações comportamentais; b) redução do consumo de água e alimentos; c) redução da produção de leite; d) aumento da CCS (contagem de células somáticas); e) aumento das proteínas inflamatórias; f) aumento da enzima lactato-desidrogenase.

Diversas investigações relacionadas com o comportamento doente de vacas acometidas por mastite foram feitas utilizando-se a indução experimental da doença, num sistema de tie-stall (sistema de confinamento em baias individuais), com um reduzido número de animais. Estes estudos investigaram principalmente as alterações do tempo que as vacas permaneciam deitadas, nível de atividade e o consumo de alimentos. Entretanto, nos casos de ocorrência natural da mastite, alguns fatores importantes como a competição e a hierarquia entre as vacas, o sistema de ordenha e o tipo de instalação podem gerar interferências no comportamento.

Pensando nisso, investigadores dinamarqueses realizaram um estudo com o objetivo de avaliar os sinais clínicos da infecção mamária, consumo, atividade comportamental e comportamento das vacas durante a ordenha num sistema free-stall durante e após o diagnóstico de mastite, totalizando um período de dez dias. Também foi realizada a comparação entre o comportamento de vacas sadias (grupo de controlo) e o comportamento de vacas naturalmente infectadas e tratadas com antibióticos, ambos os grupos mantidos num ambiente similar.

Para isto, dois grupos de 60 vacas em diferentes fases de lactação foram avaliados. As vacas foram ordenhadas num sistema de ordenha voluntário (robotizado), sendo que as que apresentassem DEL (dias em lactação) inferior a 150 dias foram ordenhadas com um intervalo mínimo de 5 horas ou produção de 7kg leite/ordenha; já as vacas com DEL>150 foram ordenhadas em intervalos de 8 horas ou 8 kg leite/ordenha. Independentemente do DEL, vacas com um intervalo de ordenha superior a 15 horas eram ordenhadas duas vezes/dia.
As vacas foram monitorizadas diariamente para diagnosticar a mastite e, em casos de aumentos da lactato-desidrogenase, CCS ou da condutividade elétrica, foi realizado o TCM (teste californiano de mastite). O TCM foi classificado com classificações entre negativo (<200,000 células somáticas) e 4 (>5,000,000 células somáticas). Dos casos que apresentassem classificação positiva, amostras de leite eram colhidas assepticamente para efectuar um antibiograma.

No total, foram utilizadas 30 vacas com mastite e aquelas que apresentassem outras doenças, além da mastite, não foram utilizadas no estudo. As vacas infectadas foram tratadas por três dias apenas com antibióticos específicos para cada bactéria identificada. O dia de início do tratamento foi chamado de d0, no qual eram aplicados tratamentos locais e sistémicos; já nos dias consecutivos (d1 e d2) foi realizado apenas o tratamento sistémico.

Para a comparação, cada vaca com mastite foi emparelhada com uma vaca do grupo de controlo que apresentasse a fase da lactação, DEL, produção de leite, classificação de claudicação e CC (condição corporal) semelhantes. Além disto, as vacas do grupo de controlo deveriam apresentar CCS<100,00 células/mL e ausência de histórico de tratamento médico nos últimos 30 dias. As variáveis analisadas foram baseadas em registos automáticos por meio de sensores fixados nos animais e nos equipamentos. O consumo de alimentos (kg/d) foi avaliado pelo número de visitas à manjedoura e o tempo de cada refeição; já a taxa de consumo foi calculada de acordo com a quantidade de alimento ingerida por minuto (kg/min). Para a avaliação da atividade dos animais, foi medido o tempo de permanência dos animais deitados, números de deitadas e número de passos, entre o d0 e o d10.

Quanto ao comportamento durante a ordenha, esta foi avaliada a partir das 48 horas antes da aplicação de antibióticos até o d10. Para esta análise, foi posicionada uma câmara no sistema automático de ordenha e duas pessoas treinadas avaliaram as vacas. Junto à aplicação dos antibióticos e nos dias consecutivos foram realizados exames clínicos às vacas, os quais incluíam a avaliação do úbere, aferição da temperatura retal e o TCM.

As vacas com mastite apresentaram menor consumo de alimentos, menor taxa de consumo e menor tempo deitadas. As vacas deste grupo também apresentaram maior frequência de levantamento das patas traseiras e coices durante a ordenha. Constatou-se que se movimentavam mais através de um maior número de passos e de deitadas. Também foi verificado que o consumo das vacas era menor antes do tratamento com antibiótico (d0 a d3) e aumentou com o tempo em ambos os grupos (controle e mastite).

Os resultados deste estudo demonstraram um comportamento doente evidente nas vacas acometidas naturalmente por mastite clínica. Até mesmo nos casos sem comprometimento sistémico (febre, emagrecimento, anorexia), a mastite foi considerada pelos investigadores uma doença que causou desconforto para as vacas, uma vez que estas permaneceram inquietas durante a ordenha e ficaram menos tempo deitadas, sinais característicos de desconforto.

Fonte.: HERSKIN et al, 2015. Behavioral changes in freestall-housed dairy cows with naturally occurring clinical mastitis. Journal of Dairy Science, 98:1-9.

*Mestranda do Departamento de Nutrição e Produção Animal (VNP), FMVZ-USP.

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