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Associação entre mastite clínica e contagem de células somáticas


*Artigo original do MilkPoint Brasil
Marcos Veiga Santos Pirassununga - São Paulo - Pesquisa/ensinoProfessor Associado da FMVZ-USP Qualileite/FMVZ-USP Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225 Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP Pirassununga-SP 13635-900 19 3565 4260




A mastite clínica é uma forma de apresentação da doença, na qual ocorrem alterações visuais do leite e/ou do quarto mamário, e ocasionalmente, também podem ocorrer sintomas sistémicos. Este tipo de mastite é facilmente percebido pelo ordenhador,  durante a preparação da vaca antes da ordenha. Quando a detecção da mastite não é realizada, ou feita de forma deficiente, uma parcela das vacas com mastite clínica pode ser ordenhada juntamente com as demais vacas sadias, o que causa significativo aumento da CCS do tanque. Além disso, este leite de vacas com mastite clínica é inapropriado para o consumo humano, pois tem alterações de composição e qualidade.

As principais perdas e custos diretos associados com a mastite clínica são facilmente perceptíveis. As perdas diretas consistem da redução da produção de leite nos dias anteriores, durante e após a ocorrência do caso clínico. Por exemplo, em vacas adultas, as perdas de produção iniciam-se aproximadamente entre a semana antes (estimadas em cerca de 2 a 3 kg/dia) e as duas semanas após o início do caso clínico. Além das perdas diretas de produção de leite, a mastite clínica resulta em custos com tratamentos (medicamentos, descarte do leite com resíduo de antibiótico), descarte precoce de vacas e redução de desempenho reprodutivo. Adicionalmente, a mastite clínica também afeta negativamente o bem estar da vaca e aumenta o risco de transmissão de mastite para outras vacas, quando o agente causador é contagioso. Sendo assim, para monitorização da mastite clínica, o produtor necessita de ter implantado: a) uma rotina confiável de detecção da mastite clínica, b) uma rotina de colheita de amostras de leite (antes do tratamento) para cultura microbiológica (identificação dos agentes causadores de mastite clínica); c) definição de protocolos de tratamento, com base no perfil de agentes e das demais informações do rebanho.

Mudança no perfil de agentes de mastite clínica

Tradicionalmente, as pesquisas indicam que quando ocorre aumento de CCS, o risco de mastite clínica aumenta, principalmente quando os agentes causadores são contagiosos, como Staphylococcus aureus e Streptococus agalactiae. Esta relação entre altas CCS e aumento de mastite clínica pode ser observada em rebanhos com predominância de mastite crónica, nos quais as vacas apresentam CCS elevada por longos períodos da lactação e ocasionalmente apresentam casos clínicos.

A implantação eficiente de medidas de controle de mastite contagiosa em rebanhos tem como resultado direto a redução da CCS do tanque no médio e longo prazo. Esta situação tem ocorrido principalmente em rebanhos leiteiros com forte incentivo para a produção de leite com baixa CCS, quando há bonificação do preço do leite. Em consequência da redução da CCS média do rebanho, pode ocorrer aumento da incidência de mastite clínica, cujas causas geralmente são agentes de origem ambiental. Desta forma, alguns rebanhos podem ter grande sucesso na redução da CCS do tanque e no controle da mastite contagiosa, no entanto, podem concomitantemente observar aumento dos casos de mastite clínica. Esta situação tem sido observada em países com produção desenvolvida, nos quais a despeito de uma significativa redução da CCS média do tanque nas últimas décadas, a incidência de mastite clínica tem aumentado.

Como exemplo desta situação, estudos indicaram que em rebanhos com baixas CCS no tanque (<150.000 cel/ml) ocorre aumento do risco de mastite de clínica, em condições de aumento de exposição aos patógenos causadores de mastite ambiental. Dentre os agentes ambientais mais frequentemente isolados de casos de mastite clínica, podemos destacar os coliformes (Escherichia coli e Klebisiella spp.) e os estreptococos ambientais. Estes agentes ambientais sobrevivem nos locais onde a vaca fica alojada, principalmente na cama, e de forma oportunista, aumentam a contaminação da extremidade dos tetos, e consequentemente, aumentam o risco de invasão da glândula mamária e de causar mastite.

Os principais fatores de risco para aumento da mastite clínica associados com agentes de origem ambiental são: a) maneio de ambiente que resulta em maior exposição dos tetos à contaminação ambiental (exemplo: deficiências de limpeza de cama e demais instalações, superlotação, falta de higiene na área de maternidade, deficiências de higiene pré-ordenha); b) baixa capacidade de resposta imune da vaca (deficiências de micro-nutrientes e de conforto do ambiente). Nestes rebanhos com baixas CCS, o risco de casos de mastite clínica aguda aumenta, principalmente quando há deficiência de limpeza e higiene na maternidade, pois as vacas no período peri-parto encontram-se em situação de imunossupressão (redução da capacidade do sistema imune).

Além dos fatores de risco relacionados com características específicas de cada rebanho, existem fatores individuais ligados à vaca ou ao quarto mamário, os quais levam ao aumento do risco de mastite clínica. Dentre os fatores ligados à vaca pode-se destacar: o nível de produção de leite, o número da lactação, ocorrência de gotejamento de leite antes da ordenha, ocorrência de doenças do peri-parto (distocia, retenção de placenta, cetose), escore de limpeza da vaca e CCS da vaca antes do casos clínico.

Vacas com úberes e pernas sujos, assim como com acumulação de esterco na região do úbere, apresentam maior risco de casos de mastite clínica causada por coliformes e Streptococcos uberis do que vacas limpas. Desta forma, problemas de higiene no ambiente em que as vacas são alojadas é um indicador de risco de mastite clínica e de qualidade do leite. Atualmente, o uso de sistema de scores de limpeza da vaca pode ser uma ferramenta útil para avaliar as condições ambientais que as vacas permanecem.

Da mesma forma, vacas com altas CCS (> 200.000 cel/ml) no primeiro mês de lactação apresentam risco aumentado de mastite clínica no restante da lactação. Isso pode ocorrer em razão de novas infecções que se iniciam no período seco e somente se manifestam na forma clínica durante os primeiros meses de lactação, já que neste período as vacas também encontram-se em balanço energético negativo e têm menor capacidade de resposta imune. Assim, a primeira avaliação da CCS das vacas no período pós-parto é uma informação fundamental para monitorização da eficiência do tratamento de vaca seca e do maneio durante o período seco.

Além disso, os riscos de ocorrência de mastite clínica variam de acordo com o número de lactação e com o estágio de lactação. Por exemplo, primíparas apresentar menor risco de mastite clínica do que vacas adultas. Entre as possíveis causas para o menor risco de mastite clínica em novilhas, destaca-se que este grupo é geralmente manejado de forma separada das vacas adultas, o que reduz o risco de transmissão de mastite contagiosa. Outras possíveis razões incluem a maior capacidade de resposta imune das novilhas em relação às vacas adultas, menor nível de produção de leite e a ausência de histórico prévio de mastite. Vacas em início de lactação apresentam 1,5 vezes mais risco de apresentar mastite clínica do que vacas em final de lactação.

Além dos fatores de risco associados com as características da vaca, pode-se avaliar fatores associados ao quarto mamário. Dentre os principais, podemos destacar: histórico de mastite, posição dos tetos, ocorrência de hiperqueratose (lesão extremidade dos tetos). Estas características indicam que existe uma alta chance de reincidência de casos de mastite na mesma vaca e no mesmo quarto previamente infectados. Quartos mamários com histórico prévio de mastite apresentam maior risco de novo caso de mastite durante a lactação. Da mesma forma, quartos traseiros apresentam maior risco de mastite, possivelmente em razão da maior produção de leite, o que resulta em maior tempo de ordenha e maior desafio para a saúde dos tetos.

A hiperqueratose é uma condição na qual ocorre aumento do crescimento da pele na região da extremidade dos tetos, em resposta a uma agressão, geralmente causada pelo mau funcionamento do equipamento de ordenha (exemplo: alto nível de vácuo, pulsação inadequada, extrator automático de tetinas com funcionamento inadequado) ou maneio de ordenha deficiente (pouca estimulação antes da ordenha e sobre-ordenha). Sendo assim, quartos mamários com hiperqueratose grave são mais propensos a apresentar casos de mastite clínica do que quartos sem este tipo de lesão.

A despeito desta aparente desvantagem em rebanhos nos quais ocorre redução de CCS média do tanque e aumento de risco de mastite clínica, a ocorrência de novos casos de mastite não depende somente da CCS prévia, mas sim de outros fatores de resistência da vaca e de contaminação do ambiente da vaca. Sendo assim, os estudos indicam que tão importante quanto a CCS da vaca antes da infecção é a velocidade com que as células de defesa são mobilizadas para combater a infecção, o que está associado com as condições de conforto, adequada nutrição e a estimulação da resposta imune por meio do uso de vacinação. Sendo assim, o conhecimento dos fatores de risco de ocorrência de mastite pode auxiliar no monitoramento da mastite e na necessidade de medidas de controle específicas para cada rebanho.

Fonte: SANTOS, M. V. Inforleite. p.32 - 34, Maio/2015. 

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