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Avaliação da suscetibilidade de estirpes de S. aureus e S. epidermidis responsáveis por mastite ovina a óleos essenciais de plantas do Alentejo

POR CRISTINA QUEIROGA

E MADALENA PINTO COELHO

CLÍNICA, REPRODUÇÃO & QUALIDADE DO LEITE

EM 26/03/2014

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A mastite ovina afeta a produção nas raças de aptidão leiteira, mas também nas raças produtoras de carne. Define-se mastite como a inflamação da glândula mamária, caracterizada por alterações físicas, químicas e microbiológicas no leite e alterações no tecido glandular (Domingues & Leite, 2013). A mastite pode apresentar-se sob a forma clínica, com sintomas detetáveis a nível do úbere e/ou alterações do leite, ou sob a forma subclínica, em que não há sinais clínicos de inflamação, nem alterações do aspeto normal do leite, pelo que normalmente passa despercebida aos produtores (Queiroga et al., 2007).

O tratamento e profilaxia da mastite dependem da utilização de agentes antimicrobianos, porém, a utilização destes exerce uma pressão de seleção que leva à emergência de estirpes resistentes e multirresistentes, as quais não só agravam o problema do tratamento das mastites, como ainda constituem um perigo para a saúde pública. Assim sendo, será importante a descoberta de novos protocolos eficazes que não recorram à utilização deste tipo de fármacos.

O agente etiológico mais frequentemente associado à forma clínica da infeção da glândula mamária de ovelhas é a espécie Staphylococcus aureus, à semelhança do que ocorre com os bovinos (Radostits et al., 2000). Na forma subclínica as principais bactérias envolvidas são staphylococci coagulase-negativos, nomeadamente S. epidermidis, S. xylosus, S. chromogenes e S. simulans, podendo também ser provocada por S. aureus. Em diversos rastreios, a espécie S. epidermidis revelou ser o mais frequente agente etiológico de mastite subclínica nas ovelhas (De la Cruz et al., 1994; Hofer et al., 1995; Ziluaga et al., 1998; Las Heras et al., 1999; Pengov, 2001; Ariznabarreta et al., 2002; Bergonier et al., 2005; Queiroga, 2007) e foi referida por Hofer (1995) como principal causador de mastite clínica em ovelhas.

A qualidade do leite tem destacada importância sob o ponto de vista da saúde pública, que pode ser afetada devido a casos de doenças associadas ao consumo de leite ou derivados lácteos contaminados com microrganismos patogénicos, quer devido aos resíduos de antibióticos nestes produtos, decorrentes dos tratamentos, sistémicos ou intramamários, com antibióticos, para combate e prevenção de mastites (Costa, 2009). A presença destes resíduos para além de contribuir para a seleção de microrganismos patogénicos resistentes, interfere na produção de derivados, podendo inviabilizar o seu fabrico (Almeida, 2004).

Assim, o futuro da saúde pública pode passar pela investigação de terapias alternativas (Chao, 2008), descobrindo novas substâncias com propriedades antimicrobianas e com diferentes mecanismos de ação (Reichling, 2009). Os produtos naturais podem representar uma aproximação interessante de modo a limitar o surgimento e disseminação de microrganismos patogénicos, que atualmente são difíceis de controlar. Recentemente tem havido um considerável interesse no estudo de produtos derivados de plantas como agentes antimicrobianos. Uma hipótese a considerar é a utilização de óleos essenciais (OEs), que têm mostrado bom potencial como agentes no tratamento de infeções (Nostro et al., 2007).

Dada a importância das espécies S. aureus e S. epidermidis, foram já vários os estudos que avaliaram a sua suscetibilidade a diferentes OEs, também devido ao facto de, em geral, as bactérias de Gram-positivo serem mais suscetíveis à ação dos OEs do que as de Gram-negativo, possivelmente devido à parede lipopolissacarídica destas últimas (Smith-Palmer et al., 1998; Mangena e Muyima, 1999).

Neste trabalho procedeu-se à avaliação da suscetibilidade de estirpes de S. aureus e S. epidermidis causadoras de mastite ovina a quatro OEs diferentes: alecrim (Rosmarinus oficinalis), calaminta (Calamintha baetica), rosmaninho (Lavandula stoechas subsp. luisieri) e tomilho (Thymus mastichina). Estes OEs foram obtidos a partir de plantas da região do Alentejo que são vulgarmente utilizadas na alimentação humana, e têm sido testados para outros microrganismos com resultados positivos. A avaliação da atividade antibacteriana foi efetuada pelo método de difusão em meio sólido (NCCLS, 2002). Os óleos foram classificados como fortemente ativos caso o diâmetro do halo de inibição fosse superior a 8 mm, moderadamente ativos se o diâmetro se situasse entre 6 e 8 mm e inativos se o diâmetro fosse inferior a 6 mm (Ela et al., 1996).

De acordo com o método utilizado, os quatro OEs foram fortemente ativos contra a maioria dos isolados. Os óleos de rosmaninho e tomilho apresentaram níveis mais elevados de inibição para os isolados de S. aureus, enquanto os óleos de calaminta e rosmaninho apresentaram níveis mais elevados de inibição para S. epidermidis (Figuras 1 e 2). Neste estudo, os microrganismos demonstraram maior suscetibilidade ao óleo de rosmaninho que a qualquer um dos outros três óleos testados.







Os resultados indicaram que os isolados bacterianos apresentam elevada suscetibilidade aos OEs. Em relação ao óleo de alecrim, este foi fortemente ativo contra as estirpes de S. aureus, mas foi inativo contra a maior parte das estirpes de S. epidermidis. No estudo de Mangena e Muyima (1999) este óleo foi fortemente ativo contra as duas espécies. Outros autores referem que o óleo de alecrim foi fortemente ativo contra S. aureus (Elgayyar et al., 2001; Chao et al., 2008). Por sua vez, no trabalho de Nascimento e outros (2000), o óleo de alecrim não demonstrou propriedades antimicrobianas num ensaio de difusão em meio sólido.

Relativamente ao óleo de rosmaninho, os nossos resultados indicaram que é fortemente ativo contra a maioria das estirpes de S. aureus e de S. epidermidis. Segundo Shafaghat e outros (2012), entre dez microrganismos testados contra o óleo de rosmaninho, S. aureus e S. epidermidis foram os mais sensíveis a este óleo, sendo classificado como fortemente ativo. No trabalho de Chao e colaboradores (2008), este óleo foi fortemente ativo contra S. aureus.

Quanto ao óleo de tomilho, a maioria dos isolados de S. aureus e de S. epidermidis revelaram-se suscetíveis. Noutros estudos (Faleiro et al., 2003; Chao et al., 2008) o óleo de tomilho foi considerado fortemente ativo contra S. aureus. Contudo no trabalho de Nascimento e outros (2000), este óleo foi inativo contra S. aureus.

Os resultados obtidos neste estudo estão de acordo com alguns obtidos por outros autores, mas diferem de outros referidos. Há ainda uma falta de padronização para avaliar a atividade antimicrobiana de extratos de plantas e OE, o que dificulta a reprodutibilidade e comparação de alguns estudos (Hammer et al, 1999; Dal Pozzo et al., 2011). Existem muitos fatores que podem influenciar os resultados, como a composição do óleo, o que depende das condições de crescimento da planta, fase de desenvolvimento, a técnica de extração, de material fresco ou seco de planta, entre outros (Faleiro et al., 2003; Smith-Palmer et al., 2004) e do procedimento seguido para testar a atividade antimicrobiana. Por outo lado, por vezes são comparados resultados de estudos que utilizam óleos com o mesmo nome mas que são extraídos de diferentes espécies da mesma planta.

Neste estudo foram avaliadas espécies bacterianas responsáveis por causar mastite em ovelhas, com um grau relevante de resistência a antibióticos (Queiroga, 2007), com o objetivo de estudar uma solução alternativa na luta contra as mastites ovinas. Os resultados indicaram uma alta atividade antimicrobiana dos OEs para estes microrganismos, no entanto, mais estudos devem ser realizados de forma a avaliar com mais rigor a atividade destes extratos.


Bibliografia


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Bergonier, D., Lagriffoul, G., Barillet, F., Rupp, R., Valognes, A., Brugidoux, R., Berthelot, X. (2005). Aetiological, clinical and epidemiological characterization of clinical mastitis in dairy sheep. (pp. 497–503). Wageningen Academic Publishers.

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Domingues, P. F., Leite, C. A. (2013). Mastite em Ovinos. Ovinos e Caprinos na Unesp. Acedido a 22 de Julho de 2013 em http://www.fmvz.unesp.br/fmvz/Informativos/ovinos/capov.html.

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