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Claudicação em vacas de leite: Prevalência e Lesões

POR ELIAS JORGE FACURY FILHO

E ANTONIO ULTIMO DE CARVALHO

CLÍNICA, REPRODUÇÃO & QUALIDADE DO LEITE

EM 26/08/2015

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Artigo original adaptado do MILKPOINT BRASIL, por Paulo Marcos Ferreira - Professor aposentado da EV UFMG; Antônio Último de Carvalho e Elias Jorge Facury Filho - Professores da disciplina Clínica de Ruminantes da EV UFMG e Marina Guimarães Ferreira - Aluna de pós-doutorado da EV UFMG

A claudicação é um distúrbio frequente nas vacas de leite e, na maioria das vezes, causada por manifestações clínicas das lesões de cascos. Vale a pena destacar que a frequência destas afecções, é elevada  e, como não há sinais clínicos evidentes, passam despercebidas. Nesses casos, são consideradas como subclínicas, e devem ser diagnosticadas precocemente, evitando, assim, sua evolução e grandes perdas económicas. É interessante destacar que os bovinos possuem uma natureza calma e, muitas vezes, escondem os sinais de dor, como uma estratégia de defesa contra os predadores. Desta forma, a manifestação dolorosa causada por lesão nos pés não é evidente.

Estes e outros resultados mostram a elevada frequência das enfermidades dos cascos  e a necessidade de formação do pessoal para diagnosticar esta situação e, com base nos resultados, traçar medidas de prevenção e controlo.

Neste artigo, apresentaremos as principais enfermidades dos cascos de bovinos, as suas frequências, métodos de diagnóstico e tratamentos.

2- Principais afecções podais

As lesões podais dos bovinos podem ser agrupadas em infecciosas e metabólicas. As infecciosas envolvem as partes moles dos pés (pele digital), apresentando uma incidência maior em estábulos com condições precárias deficitárias, humidade excessiva e acumulação de matéria orgânica. Frequentemente, podem estar envolvidos agentes infecciosos comumente encontrados no meio ambiente. Outras vezes, ocorrem a partir da introdução de animais novos que trazem novos agentes, como ocorre com a Dermatite Digital.

Já as lesões de origem metabólica estão relacionadas aos processos de laminite, caracterizados pela formação de tecido córneo de baixa qualidade, a partir de alterações hemodinâmicas dentro do estojo córneo, em consequência de distúrbios circulatórios sistémicos. Desta forma, atingem, principalmente, os tecidos queratinizados do casco, como a sola, linha branca, muralha e talão.

2.1- Lesões de origem infecciosa

Dermatite Digital


Descrita inicialmente na Itália, por Cheli e Mortelaro, em 1974, é considerada como uma das mais frequentes causas de claudicação no mundo. A sua etiologia é incerta, acreditando-se ser de origem multifatorial, associada a germes anaeróbicos, especialmente espiroquetas do género Treponema. Atualmente, é bastante difundida na Europa, Estados Unidos, Canadá e em diversos outros países. 

Apresenta-se como uma afecção da pele digital, localizada na região coronariana entre os talões da superfície palmar/plantar, e menos em outras localizações, como na superfície dorsal dos cascos entre as unhas, ou mesmo no espaço interdigital. Na sua fase inicial, ocorre um espessamento da pele seguida da formação de úlcera, que pode ser acompanhada de tecido proliferativo semelhante a uma verruga. A úlcera apresenta-se em forma de fenda profunda, contendo tecidos necrosados e matéria orgânica e, algumas vezes, o tecido que cresce ao redor da lesão apresenta formação de pelos. É muito dolorosa na fase aguda, levando, frequentemente, à manqueiras e à queda na produção de leite.

Os animais jovens são os mais susceptíveis, especialmente novilhas e vacas de primeira lactação, com prevalência de manqueira em 50-60% dos animais acometidos. 

O tratamento baseia-se na limpeza da lesão, retirada de tecido necrótico, aplicação tópica de antibióticos e isolamento. Quando as lesões são grandes, proliferativas, crónicas e persistentes, recomenda-se a retirada cirúrgica, embora as recidivas sejam frequentes. Nas situações de alta frequência, é necessário o tratamento do rebanho com antibióticos aplicados sob a forma de pulverização nos pés, após limpeza prévia, durante cinco dias. Além destas medidas, é importante o uso sistemático de pedilúvio. 

dermatite digital

Dermatite Interdigital

A dermatite interdigital é um processo inflamatório que afeta a pele do espaço interdigital, sem extensão aos tecidos profundos. É causada por bactérias ambientais anaeróbicas dos gêneros Fusobacterium e Dichelobacter. Apresenta-se, inicialmente, em forma de fenda , podendo levar ao espessamento da pele interdigital nos casos crónicos. Nos casos graves, pode haver presença de pus com odor fétido e aumento da sensibilidade, levando à claudicação.  A produção de toxinas a partir da infecção bacteriana é responsável pela instalação de um quadro sistémico de toxemia e, muitas vezes, pode levar o animal à morte. A extensão da infecção pode atingir a articulação interfalangeana distal e causar artrite séptica grave. Nos casos crónicos de dermatite interdigital, ocorre espessamento da pele, levando à hiperplasia.

A lesão inicial de dermatite interdigital pode ser tratada fazendo-se a assepsia da ferida com remoção de tecidos necróticos e aplicação de antissépticos locais ou isolamento com antibióticos.


Nos casos crónicos de hiperplasia interdigital, recomenda-se a remoção cirúrgica. A taxa de recidiva é grande pois, muitas vezes, está associada a conformações defeituosas das unhas, aumentando a área do espaço interdigital e predispondo-o a lesões traumáticas.

dermatite interdigital

Erosão de talão

A erosão de talão (ET) é uma perda irregular do tecido córneo, que se inicia na forma de pequenos orifícios arredondados que podem levar à formação de fissuras profundas na região do talão e, às vezes, da sola. A coalescência destas áreas circulares de erosões, resulta na formação de áreas lineares extensas, que quando bilaterais, formam uma lesão conhecida como “V negro”.

A ocorrência desta alteração é associada à baixa qualidade dos tecidos córneos secundária à laminite e a infecções bacterianas. O principal germe isolado é o Dichelobacter nodosus, que tem uma ação importante na destruição dos tecidos córneos por produção de proteases (enzimas que quebram as proteínas). Altas densidades populacionais, associadas a ambientes húmidos e presença de grande quantidade de matéria orgânica, são considerados fatores de alto risco, por aumentarem a concentração local de patógenos.

O tratamento baseia-se no casqueamento, remoção dos tecidos necróticos e aplicação tópica de antisséptico, e pedilúvio. As lesões de baixa severidade podem ser tratadas apenas com o uso sistemático de pedilúvio e higiene ambiental.


Esse artigo foi originalmente publicado na Revista Leite Integral, edição 72 - março 2015.

ELIAS JORGE FACURY FILHO

ANTONIO ULTIMO DE CARVALHO

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