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Claudicações em vacas leiteiras: Biomecânica e Fatores de Risco - Parte 1

*Artigo original MilkPoint Brasil

Por Paulo Marcos Ferreira - Professor aposentado da EV UFMG; Antônio Último de Carvalho e Elias Jorge Facury Filho - Professores da disciplina Clínica de Ruminantes da EV UFMG; Rodrigo Melo Meneses - Aluno de doutorado da EV UFMG; Marina Guimarães Ferreira - Aluna de pós-doutorado da EV UFMG e Rafael Guimarães Ferreira - Médico veterinário autónomo


A partir de meados do século XX, geneticistas e criadores intensificaram os trabalhos de melhoramento de bovinos leiteiros. Progressos extraordinários começaram a surgir no que se refere a algumas características como, por exemplo, maior capacidade digestiva e respiratória, maior desenvolvimento da glândula mamária e aumento da capacidade de produção de leite. Entretanto, estes resultados não foram acompanhados, na mesma velocidade, pelo melhoramento de pernas e pés, que além de não terem sido uma preocupação inicial, são de baixa herdabilidade, necessitando muitos anos de seleção para a obtenção de resultados satisfatórios.

Paralelamente, atendendo a uma procura do mercado, foram realizadas modificações das instalações visando adequá-las às necessidades de intensificação dos sistemas de produção, a fim de torná-los mais produtivos, levando a uma maior concentração de animais por área, e resultando num maior volume de dejetos, maior humidade, menor higiene e grandes dificuldades de maneio.

Na procura por soluções para estes problemas iniciou-se um processo de impermeabilização dos pisos das instalações objetivando a diminuição da humidade e a maior facilidade de limpeza. Este processo resultou na construção de sistemas de confinamento como “loose-housing”, “tie-stall” e “free-stall”, nos quais as vacas, frequentemente, passam a maior parte do tempo em pé sobre piso de cimento, em situações de desconforto, por falta de camas adequadas que as estimulem para o descanso.

Sabe-se que, anatomicamente, os pés e membros dos bovinos são perfeitamente adaptados a superfícies macias como terra e pastagens, onde o solo, na maioria das vezes, proporciona uma condição mais suave para caminhar. Os bovinos possuem uma reduzida capacidade de absorção de impactos causados por pisos duros, principalmente considerando-se a pequena área de apoio no solo, a pouca capacidade de amortecimento, especialmente dos membros pélvicos, e o peso excessivo de muitos desses animais. Além disso, deve considerar-se também o desgaste excessivo que o tecido córneo sofre em pisos abrasivos, principalmente quando húmidos, onde a taxa de desgaste pode superar a de crescimento do tecido córneo que é de, aproximadamente, 5 mm mensais.

Outro aspecto a ser observado é a grande pressão exercida pelo peso dos bovinos por cm2 do pé, que é aproximadamente 10 vezes maior que aquela exercida pelos pés humanos.

Deve considerar-se também que animais selecionados para uma maior produção de leite exigem dietas mais ricas em nutrientes de alta digestibilidade, com menores teores de fibras efetivas, extremamente importantes para estimular a ruminação e a produção de saliva que apresenta ação tamponizante no rúmen, auxiliando o controlo da acidose. Estas dietas, com freqüência, podem provocar quadros de acidose subclínica, especialmente devido à necessidade de alcançarem grandes consumos de matéria seca, muitas vezes em animais pouco adaptados às mesmas.

Nas últimas décadas, os problemas relacionados às afecções dos pés dos bovinos adquiriram uma crescente importância, sendo, em muitos casos, um dos principais entraves económicos ao seu desenvolvimento. Atualmente, a maioria dos investigadores considera que as coxeiras, juntamente com as mastites e os problemas reprodutivos, constituem as três principais causas de perdas económicas na bovinocultura leiteira.

Aspectos Económicos

As perdas de produtividade, relacionadas com os problemas de unhas, são representadas por baixa produção de leite, diminuição do peso corporal, baixo desempenho reprodutivo, custos com tratamentos dos animais doentes e refugo. No início da lactação, animais com problemas podais apresentam um aumento significativo do período de serviço, do intervalo de partos e uma menor taxa de concepção. Rebanhos com alta frequência de problemas podais apresentam ainda maior incidência de quistos nos ovários, metrires e alterações do ciclo estrico, quando comparados com efetivos sem estes problemas.

As perdas produtivas dos animais mancos podem ser associadas à baixa ingestão de alimentos, que varia de acordo com a gravidade da lesão. Nos casos graves, uma vaca perde de 7-16% da sua capacidade de ingestão de matéria seca, o que representa perdas de 17-36% na produção de leite e na classificação corporal. Há um certo consenso de que as coxeiras provocam perdas de produção de leite superiores a 20%, causam um aumento do período de inisiminação superior a 30 dias e perdas de condição corporal de 1 a 2 pontos em uma escala de 1 a 5.

Atualmente, a incidência e a prevalência de manqueiras têm apresentado constantes subidas, a ponto de, nos Estados Unidos, ser considerada como normal uma prevalência diária de coxeiras de até 15% dos animais do efetivo.

No Brasil, um grupo de investigadores avaliou um rebanho leiteiro confinado, no município de Pedro Leopoldo (MG), relatando um custo relacionado a lesões laminíticas (117 animais), de US$ 8732,50, representando um custo individual por animal alojado/ano de US$ 74,60 e um custo médio de tratamento por caso de US$ 44,68. Neste estudo não foram avaliadas as perdas relacionadas à diminuição na produção de leite.

Avaliando um efetivo leiteiro confinado em Esmeraldas (Minas Gerais, Brasil), outro investigador observou um aumento da incidência de mastite de 31%, perdas de produção de leite de 28,4%, aumento do período de beneficiação de 65 dias e perda de concepção de 25%, em vacas com coxeiras. Estas alterações representaram um custo adicional anual por animal doente de U$132,00 (produção+reprodução), e custo por vaca alojada de U$125,36.

Anatomia e biomecânica

Os pés dos bovinos correspondem às extremidades dos membros, estendendo-se do carpo ou tarso até as falanges distais dos dedos (II e IV), que são separados em dígitos mediais e laterais. Nos membros pélvicos (posteriores) os dígitos laterais são maiores por suportarem mais peso, ocorrendo o inverso nos torácicos (anteriores).

As unhas dos bovinos englobam as seguintes estruturas: parte distal da falange média, articulação interfalangeana distal, sesamóide distal, falange distal, bolsa podotroclear, inserções dos ligamentos dos tendões extensores e flexores profundos, cório, coxim coronariano e digital, ligamentos, etc. A área de união entre a pele e o casco é denominada períoplo, seguida da banda coronária e da muralha do casco, que é subdividida em dorsal (face cranial), axial (face medial) e abaxial (face lateral). A parte inferior de apoio é denominada sola e é separada da muralha pela linha branca, sendo a parte mais caudal conhecida como talão, que corresponde ao calcanhar.



As claudicações nos bovinos ocorrem com frequência diferente entre os dígitos, com maior envolvimento da unha lateral do membro pélvico. Este padrão de distribuição indica que, além dos erros de nutrição, maneio e ambiente, a distribuição de peso nos diferentes dígitos é um fator importante nas alterações que levam à claudicação.

Ao examinarmos a distribuição de peso na vaca, observa-se que 60% deste se encontra nos membros torácicos. Entretanto, do ponto de vista anatómico, estes membros se inserem no corpo por meio de ligamentos e tendões, o que tende a amortecer o impacto do peso sobre os pés, mais especificamente sobre o cório. As forças biomecânicas associadas com a variação da distribuição de peso são menos pronunciadas nos dígitos dos membros anteriores, ocasionando uma menor frequência de lesões que, quando ocorrem, estão frequentemente associadas à unha medial.

Os membros pélvicos suportam 40% do peso do animal, porém estes inserem-se ao corpo por meio da articulação coxo-femoral, criando uma estrutura esquelética rígida, com menor capacidade de reduzir os efeitos da variação de peso, principalmente nas unhas laterais.

Uma vaca de 700kg tem aproximadamente 400kg distribuídos nos membros torácicos e 300kg nos membros pélvicos. Fisiologicamente, a unha lateral posterior é sempre maior que a medial. Numa situação teórica ideal estariam distribuídos 70kg na unha medial e 80kg na lateral de cada membro posterior. Entretanto, ocorre uma oscilação na região da bacia de aproximadamente 2,5cm para cada lado, acompanhada de variação de peso de um lado para o outro. Se a conexão entre a unha lateral e medial fosse totalmente flexível, seriam distribuídos 50% do peso em cada unha, enquanto que se a conexão entre unha lateral e medial fosse totalmente rígida, o peso recairia somente nas unhas do lado que ocorreu a inclinação da vaca. Por exemplo, na inclinação para a direita, o peso recairia na unha medial do posterior esquerdo e unha lateral do posterior direito. De fato, a conexão entre as unhas homolaterais é baseada no ligamento interdigital que é semiflexível, e o peso sobre as unhas laterais varia notavelmente de um membro para o outro a cada oscilação na região da bacia, enquanto o suporte de peso na unha medial se mantém constante. No exemplo da vaca de 700 kg, em um dado momento de oscilação de peso na região da bacia, a unha lateral suportará 100 kg, para na fase seguinte suportar 60kg, enquanto que as unhas mediais suportarão um peso uniforme de 70 kg. Em locomoção, esta variação pode ir de 130 kg para 70 kg.

Estas sobrecargas periódicas estimulam a função vascular da unha lateral, levando a uma maior produção de tecido córneo nesta, em relação à medial. Em animais alojados em superfície dura e uniforme (piso de cimento) ocorre uma hipertrofia e hiperplasia das unhas laterais dos posteriores. Nas unhas dos membros torácicos as oscilações são menores e os impactos são mais bem absorvidos.

Fatores de risco


Na natureza, as vacas vivem em campos de piso macio, frequentemente livres de esterco e que não escorregam; alimentam-se basicamente de gramíneas e produzem uma quantidade de leite relativamente pequena. Nessa situação, os animais podem  comportar-se naturalmente, ou seja, mover-se, escolher o local para se deitarem, escapar de riscos iminentes, manifestar cio e evitar áreas consideradas inadequadas. Assim, os cascos mantêm-se limpos pelo contato com as gramíneas e ocorre um desgaste adequado, permanecendo as dimensões normais e a sola côncava com espessura adequada. Quando confinamos os animais, restringimos seu espaço, submetemos os cascos a pisos duros, que não absorvem a pressão exercida pelos pés; escorregadios ou excessivamente abrasivos, e que, frequentemente, estão húmidos e com excesso de esterco.

Os pés dos bovinos, ou mais precisamente as unhas, funcionam como uma interface entre o animal e seu ambiente. A unha é exposta internamente às influências do metabolismo animal e, ao mesmo tempo, aos agentes mecânicos, químicos e biológicos do ambiente.

Conforto

A vaca deve estar em condição de conforto quando deitada e também em pé e caminhando. A relação entre o tempo que a vaca fica em pé ou deitada influencia diretamente a saúde dos pés. É desejável que passem, diariamente, de 9 a 14 horas deitadas, por três razões: para aumentar o tempo de ruminação e, consequentemente, melhorar o tamponamento ruminal; para aumentar o fluxo sanguíneo para a glândula mamária, e para aliviar a carga sobre os pés. Desta forma, deve-se observar se existem locais higiênicos e confortáveis que estimulem a vaca a se deitar e, nos confinamentos, se há camas suficientes e confortáveis para todos os animais. O ideal é que cerca de 85% das vacas estejam deitadas uma hora após o fornecimento da alimentação. Vários estudos têm demonstrado que vacas que ficam em pé por longos períodos têm uma saúde de casco pior do que aquelas que permanecem mais tempo deitadas. Devemos lembrar que, em “free stall” as vacas de primeira barriga passam menos tempo deitadas (6 horas e 25 minutos, em média) que as vacas mais velhas (8 horas e 39 minutos, em média).



Por outro lado, o exercício é uma atividade positiva para a saúde dos pés. Quando as vacas se movimentam, há um aumento do fluxo sanguíneo nos pés, trazendo oxigênio e nutrientes e, ao mesmo tempo, retirando dos cascos CO2 e metabólitos. Quando os animais permanecem muito tempo em pé, parados, o sangue fica estagnado nos pés, reduzindo as trocas gasosas e de nutrientes, podendo comprometer a saúde dos cascos. Esta situação pode ocorrer quando as instalações não são planeadas adequadamente e as vacas esperam em pé para se alimentar, beber água ou para serem ordenhadas. A adequação dos tempos de descanso e de exercício está relacionada com redução da incidência de lesões de sola, especialmente as úlceras.

Camas de material inadequado e, principalmente, superfícies duras e ásperas são fatores predisponentes para lesões em tuberosidades ósseas, principalmente erosões na porção lateral do jarrete.

Esse artigo foi originalmente publicado na Revista Leite Integral, edição 71 - fevereiro 2015.

ELIAS JORGE FACURY FILHO

ANTONIO ULTIMO DE CARVALHO

RODRIGO MELO MENESES

Possui graduação em Medicina Veterinária e especialização em Clínica e Cirurgia de Grandes Animais pela UFV. Mestre em Ciência Animal pela UFMG e atualmente é aluno de doutorado nessa instituição.

RAFAEL GUIMARÃES FERREIRA

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