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Claudicações em vacas leiteiras: Biomecânica e Fatores de Risco - Parte 2

*Artigo original MilkPoint Brasil
Por Paulo Marcos Ferreira - Professor aposentado da EV UFMG; Antônio Último de Carvalho e Elias Jorge Facury Filho - Professores da disciplina Clínica de Ruminantes da EV UFMG; Rodrigo Melo Meneses - Aluno de doutorado da EV UFMG; Marina Guimarães Ferreira - Aluna de pós-doutorado da EV UFMG e Rafael Guimarães Ferreira - Médico veterinário autônomo.


A primeira parte desse artigo foi publicada no dia 22/6/2015 e pode ser consultado aqui

Higiene relacionada com doenças de cascos

O tecido córneo dos cascos necessita de humidade para manter a elasticidade. Se mantido em condições muito áridas, a parede do casco pode rachar, formando fissuras chamadas “fendas de areia”. Esta condição praticamente não ocorre nas explorações leiteiras. O esterco mantém a humidade, mas possui agentes químicos que podem danificar o tecido córneo do casco, além de ser um reservatório de microorganismos que podem infectar a pele e os pés. Quando as vacas estão no pasto, os pés são frequentemente limpos por ação mecânica e há menor contaminação com esterco. Por outro lado, quando confinadas, estão sob maior risco de exposição à humidade e matéria orgânica.

Nas explorações de leite semi-intensivas, frequentemente, as vacas são mantidas em pastagem no verão e estão expostas a matéria orgânica e humidade nos corredores. ao redor e dentro das instalações de ordenha. É importante estar atento ao grande acúmulo de barro que ocorre debaixo das áreas de sombra, tanto naturais quanto artificiais. Adequar sombra e ambiente seco durante o verão é um grande desafio. No inverno, estes animais são confinados e invariavelmente, apesar do clima seco os locais, apresentam acúmulo de esterco e urina.

O excesso de humidade e a presença do esterco causam amolecimento do casco, ocasionando maior desgaste, quebra da integridade da pele acima e entre as unhas e erosão do tecido córneo. Essas alterações, somadas à alta concentração de microorganismos no ambiente, predispõem às lesões podais por causas infecciosas como: dermatite digital, dermatite interdigital, hiperplasia interdigital e erosão de talão. As lesões são mais frequentes nos pés dos membros posteriores, pois permanecem mais tempo em ambiente húmido e com esterco do que os anteriores, quer seja nas pistas de alimentação ou nas camas do “Free stall” ou em “Tie stall”.

Tipo e qualidade dos pisos

Na natureza as vacas pisavam sobre pastagens de gramíneas, que eram macias, absorviam bem a pressão dos pés e limpavam mecanicamente os cascos. Desta forma, um piso elástico, higiénico e que permita um balanço entre desgaste e crescimento dos cascos seria o ideal para evitar lesões podais.

Nos confinamentos os pisos são geralmente de cimento, que é barato, resistente e permite fácil limpeza, porém é duro e não absorve a pressão exercida pelos cascos. O piso de cimento muito liso torna-se escorregadio, causando instabilidade na caminhada das vacas e, frequentemente, quedas predispondo a fraturas ou a lesões articulares como as luxações coxo-femorais. Por outro lado, se forem rugosos, são abrasivos, provocando um desgaste excessivo dos cascos.

Nas instalações novas os pisos tendem a ser muito abrasivos, e com o uso tendem a  tornarem-se lisos. Pisos húmidos aumentam em até 83% o desgaste da sola. O desgaste excessivo, ou seja, maior que o crescimento, dá origem a uma sola fina, macia e plana e predispõe a lesões como: úlceras de sola e de pinça, doença da linha branca e abscesso subsolear, além de perfurações por pedras. Esta situação ocorre com elevada frequência em vacas recém-paridas e, principalmente, em primíparas criadas exclusivamente em pastagem e transferidas, sem preparo, para confinamentos com piso de cimento. A situação pode ainda agravar-se se a disposição das instalações exigir grandes deslocações diárias.



Nos sistemas de criação em pastagem, atenção especial deve ser dada aos corredores, nos quais a presença de pedras, corpos estranhos e irregularidades são frequentes e responsáveis por traumatismos e formação de hemorragias de sola. Nos corredores, é frequente a formação de “lombas” durante o período chuvoso, obrigando os animais a aumentar a altura do passo. Este movimento pode predispor a lesões elevadas, especialmente, na articulação do jarrete.

Biossegurança

Os agentes infecciosos, causadores de lesões podais, podem ser introduzidos nas propriedades pela introdução de animais com doença clínica ou portadores assintomáticos. Um bom exemplo é a dermatite digital, que foi descrita pela primeira vez em 1984, na Itália, e em 20 anos se espalhou para todas as regiões.

O corte funcional dos cascos das vacas leiteiras é uma rotina de prevenção das enfermidades não infecciosas, objetivando melhor a distribuição de peso entre as unhas e retirada de lesões iniciais. Esta prática, porém, tem sido associada com a disseminação de doenças infecciosas dos cascos, especialmente a dermatite digital. O material utilizado no corte, quando sujo e infectado, funciona como transmissor de agentes microbianos entre animais e entre fazendas. Além disso, quando o corte é realizado por pessoas não treinadas, pode ocorrer a retirada excessiva de sola, predispondo a lesões traumáticas.
Manter um rebanho fechado e com bom nível de higiene é o melhor modo de prevenir a entrada de agentes infecciosos causadores de cocheiras.

Alimentação

Quadros de acidose ruminal subclínica são responsáveis por alterações sistémicas e participam na etiologia das laminites, enquanto as deficiências minerais e de vitaminas podem determinar alterações na produção e na qualidade do tecido córneo.

A acidose ruminal subclínica caracteriza-se pela produção e manutenção no rúmen com elevadas concentrações de ácidos gordos voláteis (AGVs), com aumento relativo de ácido propiónico e butírico, em detrimento do acético. O pH ruminal mantém-se na faixa de 5,0 a 5,5 várias horas por dia, durante períodos prolongados. Esta síndrome está relacionada com os seguintes fatores:
  • Alimentação rica em concentrados, especialmente hidratos de carbono não estruturais que, na fermentação ruminal, ocasionam a produção de grandes quantidades de ácidos por unidade de tempo;
  • Falta de adaptação às dietas, acarretando pequeno desenvolvimento papilar na parede do rúmen e, consequentemente, reduzida absorção e metabolismo dos AGVs ruminais;
  • Dietas pobres em fibra efetiva, responsáveis por estimular a ruminação e incrementar a produção e ingestão de saliva que, por sua vez, contribui para o tamponamento e manutenção do pH ruminal (bicarbonato, fosfato e ureia);
  • Manejo alimentar incorreto: ingestão seletiva de grandes quantidades de concentrado, falta de adaptação à dieta, concentrado fornecido em separado do volumoso em poucas refeições por dia, etc... 
Na acidose ruminal subclínica ocorre liberação de substâncias vasoativas (histamina, mediadores inflamatórios e endotoxinas) em função da inflamação da parede ruminal e da morte de bactérias Gram-negativas. Estas substâncias causam alterações hemodinâmicas no cório do casco, levando a congestão, hemorragias, isquemia e trombose que, aliadas a fatores ambientais que acarretam sobrecarga e desgaste excessivo dos cascos, são responsáveis pela instalação de laminite subclínica e suas consequências: hemorragia de sola, úlceras de sola e de pinça, doença da linha branca e deformação das unhas.



Vários minerais participam na síntese, qualidade e preservação do tecido córneo, com destaque para o zinco, cobre, cálcio, selênio e manganês. Dentre as vitaminas, destacam-se a A, D, E e a biotina.

O zinco participa da atividade de diversas enzimas e favorece a integridade dos cascos, por acelerar a cicatrização das feridas, aumentar a velocidade de reparação do tecido epitelial e manter a integridade celular. Este mineral é também necessário para a síntese e maturação da queratina.

A biotina participa da atividade de enzimas que são responsáveis pela lipogénese (formação de lípidos), que é importante na síntese do cimento intercelular que estabelece a adesão entre as células córneas do casco. A deficiência de biotina pode ocorrer em vacas com acidose ruminal subclínica, pois ela é sintetizada pelas bactérias do rúmen. A suplementação de biotina para bovinos aumenta a adesão entre as células córneas, melhorando a resistência do casco.

Maneio dos animais

As vacas devem poder movimentar-se livremente nos corredores. Quando apressamos os seus passos por meio de gritos, pedradas ou utilizando cães, alteramos seu deslocamento, favorecendo a sobrecarga em algumas unhas e não permitindo a elas escolher o melhor caminho a seguir, ou seja, desviando de obstáculos como pedras, pedaços de madeira, tocos e outros. Se observarmos o comportamento das vacas, num corredor de cimento onde se coloca uma esteira de borracha comprida e estreita, notaremos que logo se forma uma fila e todas passam a caminhar sobre a esteira, evitando o concreto duro. O mesmo acontece nos trilhos em terra com cascalho. Se lhes for dada opção, as vacas evitam pisar em piso duro e com pedras, escolhendo caminhos cobertos por vegetação.

A introdução de primíparas e vacas recém-paridas em lotes previamente formados requer um tempo de adaptação para evitar disputas pela hierarquia social, com prejuízos para o animal recém-chegado, como: movimentos involuntários de fuga e disputas, maior tempo em pé e menor ingestão de alimentos.

Fatores relacionados ao período de transição

O período de transição de vacas leiteiras é compreendido entre três semanas antes e três semanas após o parto, e é caracterizado por intensas mudanças nutricionais, metabólicas, imunológicas e hormonais. Ainda, é durante esse período que as vacas estão sujeitas a condições de maneio e ambientais adversas, resultantes da passagem de vaca seca para vaca em lactação. Diante desses diversos fatores, o tecido córneo do casco, formado nesse período, pode ser menos resistente às condições em que esses animais são submetidos.

Hormonas como prolactina, de extrema importância para o início da lactação, e glicocorticoides, importantes para que a prolactina desencadeie sua ação no tecido mamário, porém de capacidade depressora do sistema imunitário, têm os seus picos no dia do parto e interferem na qualidade do casco por meio da redução da síntese de queratina (proteína estrutural do tecido córneo). Do ponto de vista nutricional, os aminoácidos tais como cistina, histidina e metionina desempenham papeis importantes na integridade da célula produtora de queratina, assim como os minerais e vitaminas.

No início da lactação, além desses elementos, as necessidades energéticas encontram-se aumentadas, resultando em mobilização de gordura para suprir tal necessidade. Isto reflete em redução do tecido gorduroso corporal, inclusive daquele presente no coxim digital, diminuindo a absorção do impacto durante a locomoção do animal. Além disso, em um estudo realizado recentemente, observou-se que vacas com maior mobilização de gordura corporal no pós-parto apresentaram solas mais macias.

De ordem metabólica, um exemplo é o mecanismo de equilíbrio do cálcio no sangue, que é intensamente acionado no periparto, uma vez que a maioria das vacas recém-paridas apresenta algum grau de hipocalcemia. Diante do papel fundamental que esse elemento desempenha sobre o processo de formação da queratina, isso se torna preocupante. No estudo citado acima, observou-se correlação positiva entre o crescimento da muralha e a dureza da sola com as concentrações de cálcio no pós-parto, ou seja, vacas que apresentaram níveis de cálcio sanguíneo abaixo do normal tiveram menor crescimento da muralha e uma sola menos dura. Adicionalmente, animais com baixas concentrações de magnésio no sangue tiveram maior taxa de desgaste do casco.

Tudo isso ocorre, simultaneamente, em um período no qual as vacas se encontram com a imunidade comprometida, tornando-as menos competentes para responder de forma eficaz aos agentes infecciosos.

Considerações finais

As alterações do sistema locomotor dos bovinos resultam de um somatório de fatores predispostos que atuam concomitantemente e, portanto, exigem várias medidas para seu controle. Várias destas medidas se fundamentam no conhecimento dos padrões de comportamento das vacas de leite e no respeito ao seu bem estar.

Quadro 1: Áreas chaves de fatores de risco externos para claudicações das vacas de leite. (Adaptado de Mulling et al, 2006)


Esse artigo foi originalmente publicado na Revista Leite Integral, edição 71 - fevereiro 2015. Acesse e assine clicando aqui.

ELIAS JORGE FACURY FILHO

ANTONIO ULTIMO DE CARVALHO

RODRIGO MELO MENESES

Possui graduação em Medicina Veterinária e especialização em Clínica e Cirurgia de Grandes Animais pela UFV. Mestre em Ciência Animal pela UFMG e atualmente é aluno de doutorado nessa instituição.

RAFAEL GUIMARÃES FERREIRA

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