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Claudicações em vacas leiteiras: Parte II - Prevalência e Lesões

POR ELIAS JORGE FACURY FILHO

E ANTONIO ULTIMO DE CARVALHO

CLÍNICA, REPRODUÇÃO & QUALIDADE DO LEITE

EM 21/09/2015

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*Artigo original MilkPoint Brasil Por Paulo Marcos Ferreira - Professor aposentado da EV UFMG; Antônio Último de Carvalho e Elias Jorge Facury Filho - Professores da disciplina Clínica de Ruminantes da EV UFMG e Marina Guimarães Ferreira - Aluna de pós-doutorado da EV UFMG.

Confira a parte I do artigo aqui. 

2.2- Laminites

A laminite é definida como uma inflamação asséptica (sem presença de agentes patogénicos) das lâminas do córion, causada por um distúrbio da microcirculação e degeneração na junção derme/epiderme. Sua etiologia é multifatorial e a patogenia bastante complexa e ainda incerta, sendo a causa mais importante de cocheiras em bovinos confinados.

A nutrição tem sido apontada como o principal fator na ocorrência da laminite. Os distúrbios ruminais ligados a problemas de nutrição, tóxicos de alimentos ou resultantes do metabolismo, excesso de hidratos de carbono facilmente fermenescíveis no rúmen, ingestão elevada de proteína, endotoxinas resultantes de diversas afecções, baixa quantidade de fibra na dieta, genética, falta ou excesso de exercícios e deficiências nutricionais (minerais, aminoácidos e biotina) são relacionados à etiopatogenia desta afecção.

O excesso de proteína na dieta pode levar à ocorrência de reação histamino-alergénica, provocando lesão vascular nas lâminas do córion ou a produção de toxinas de origem proteica, com produção de elevados níveis de amónia. A acidose ruminal subclínica, associada a dietas ricas em hidratos de carbono ou deficientes em fibra efetiva, utilizadas com o objetivo de atender às necessidades energéticas de animais de alta produção, levam à morte de germes gram negativos do rúmen, produzindo endotoxinas e ruminite, com liberação de mediadores inflamatórios. Alguns autores sugerem ainda que possa ocorrer liberação de substâncias vasoativas como a histamina, afetando a circulação do córion por meio de vasodilatações, congestões, tromboses, isquemias, edemas e hemorragias, causando hipóxia e necrose de tecidos. Essas alterações afetam os mecanismos compensadores de pressão no interior dos cascos, como as junções arteriovenosas (shunt) e os corpos racimosos, que podem ser paralisados pelas endotoxinas, levando a uma extâse de sangue nas unhas.

Problemas nutricionais podem afetar a qualidade do tecido córneo dos cascos, podendo-se citar, como exemplo, a deficiência de biotina, que pode ocorrer nos casos de acidose ruminal subclínica. Condições de stress e deficiência de minerais na dieta como zinco, cobre, iodo e selénio também interferem na qualidade dos tecidos. As manifestações de laminite se dão sob três formas:

Aguda - pouco frequente em bovinos, ocorrendo esporadicamente em vacas em início de lactação, manifestando-se por manqueira, aumento de temperatura do casco, relutância de movimentos, dificuldade em permanecer de pé, congestão, edema e sensibilidade da banda coronária.

Subaguda (subclínica) - é a principal forma observada em bovinos e caracteriza-se pelo aparecimento de hemorragias de sola, talão e linha branca; alterações de coloração e da resistência do tecido córneo; doença da linha branca; úlcera de sola ou pinça; abcessos de sola, pinça ou talão; sola dupla; erosão de talão e fissuras de muralha.

A descoloração da sola, associada ao escoamento de material intracelular da derme, com formação de sola amarela e macia, é altamente indicativa da presença de laminite. As hemorragias e úlceras de sola são consideradas parte do mesmo processo patológico que vai, desde lesões discretas, até a formação de úlceras severas, com exposição da derme. O ponto mais frequente de aparecimento dessas lesões é o chamado “ponto típico”, situado próximo à união sola/talão, abaixo do nó flexor da falange distal. A rotação da falange distal pode ser causada por laminite, em função de lesões da lâmina dérmica, levando à separação derme/epiderme, afundamento em direção à sola e aumento de pressão sobre a mesma, causando hemorragia e necrose. Esse processo pode resultar na penetração de bactérias e formação de abscessos e, recentemente, vem sendo relacionado a alterações do aparelho suspensório, responsável pela estabilidade da falange distal no interior do casco. Este aparelho, quando lesado, permite deslocamentos da falange com lesões da sola e da pinça.

A sola dupla é consequência da interrupção da formação do tecido córneo, seguida de restauração, e está associada às hemorragias que podem ocorrer em forma de camadas, levando ao aparecimento de cavidades. Podem aparecer fissuras oblíquas na linha branca na direção muralha/sola, em consequência de hemorragias anteriores, permitindo a penetração de corpos estranhos e germes, com formação de abscessos. As lesões da derme resultam na formação de tecido córneo de baixa qualidade no talão, que pode ser responsável por torná-lo mais susceptível a erosões (erosão do talão).

Na manifestação crónica da laminite, os sinais clínicos estão associados a modificações anatómicas dos cascos, levando à ocorrência de fendas e irregularidades da muralha, estrias e fissuras horizontais, aumento do comprimento da face dorsal, diminuição do ângulo da pinça e convexidade da sola. No tratamento dos casos agudos de laminite utiliza-se a aplicação de anti-inflamatórios não esteroides e a colocação do animal em pisos macios e confortáveis. A causa deve ser avaliada e removida.

Nos casos subagudos e crónicos deve fazer-se a correção cirúrgica, com remoção das lesões na(s) unha(s) envolvida(s), mais comumente as laterais dos membros posteriores. Deve-se realizar o casqueamento do animal, aliviando a pressão sobre as úlceras, retirar todo o tecido necrótico e fazer bandagem no casco afetado. A colocação de tamanco de madeira na unha normal adjacente à lesada, por meio do uso de resina acrílica autopolimerizante, diminui a pressão sobre a mesma, reduzindo a dor e propiciando recuperação mais rápida do tecido córneo. Os curativos devem ser trocados a cada três dias e o tamanco deve permanecer até a recuperação total do animal.

Figura 1 - Abordagem de propriedades para controle das claudicações.



3- Prevalência de lesões e de cocheiras

Entende-se como prevalência de lesões ou de cocheiras o resultado do levantamento no rebanho, em um único momento, ou a média de vários levantamentos durante o ano. Atualmente, na América do Norte, tem sido observada uma elevação desta prevalência nos rebanhos, e considera-se como aceitáveis valores de até 15%. Em trabalhos recentes, esta prevalência tem atingido níveis de 24,6% em vacas multíparas e 13,8% em primíparas.

4- Incidência de Claudicações

Entende-se por incidência de claudicações num rebanho o número de casos clínicos observados durante o ano ou a média de vários anos. Consideram-se todos os animais que apresentam sintomas durante o ano ou os tratados que permaneçam sem sinais por período superior a 30 dias.

Observa-se grande variação de incidência entre os vários países do mundo e entre os diversos tipos de exploração leiteira. Entretanto, é evidente o grande aumento destes índices nos últimos 30 anos. Na Inglaterra, em 1982, relatou-se uma incidência de 5,5%, enquanto em outros trabalhos realizados em 150 rebanhos no ano de 2000, esta incidência passou para 38,2%, com variações de 4,0-144%. No Brasil, em trabalhos realizados em Minas Gerais, nos anos de 2003 e 2005, foram encontradas incidências de manqueiras de 55 e 144%.

5- Diagnóstico das claudicações

Para elaborarmos uma estratégia de prevenção e controle numa propriedade, o primeiro passo é o diagnóstico da situação. Tal diagnóstico deve envolver um levantamento minucioso dos fatores de risco presentes na exploração, a determinação da frequência, por meio da classificação da claudicação, e um exame dos cascos dos animais considerados normais.

Quando examinamos apenas cascos de vacas mancas, frequentemente observamos lesões avançadas, que não nos permitem conhecer sua apresentação inicial. Devemos examinar todos os animais mancos e 10-20% dos não mancos, mas no mínimo 10 animais por categoria, de forma aleatória. Desta maneira, pode avaliar-se as lesões, verificar a conformação dos cascos e a qualidade do tecido córneo. Após este levantamento, ficarão evidentes os principais problemas de casco presentes na propriedade, permitindo relacioná-los com os fatores predisponentes existentes, servindo de base para o planejamento das ações a serem implementadas.

As cocheiras dos animais de um rebanho são determinadas, especialmente, por meio da observação dos mesmos durante a locomoção, que tem-se mostrado extremamente confiável quando comparam-se os resultados de vários observadores. Os animais que apresentam escores variando de 2-4 na tabela 1 são considerados mancos e devem ser, obrigatoriamente, examinados posteriormente.



Esse artigo foi originalmente publicado na Revista Leite Integral, edição 72 - Março 2015.

ELIAS JORGE FACURY FILHO

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