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Culturas negativas do leite de vacas com mastite clínica: possiveis causas

*Artigo original MilkPoint Brasil, por Renata de Freitas Leite e Marcos Veiga dos Santos

A mastite bovina, processo inflamatório da glândula mamária, pode ser classificada como clínica ou subclínica, de acordo com a evidência ou não de sintomas. A mastite clínica está relacionada a alterações no leite (presença de farrapos e sangue), nos tetos (edema, sensibilidade, aumento da temperatura) e até mesmo sistémicas (febre, apatia, desidratação, perda de peso e morte do animal).

Geralmente, a mastite clínica é associada a agentes bacterianos. Escherichia coli, Staphylococcus aureus, Streptococcus agalactiae e Streptococcus uberis são exemplos de bactérias frequentemente isoladas de casos clínicos. No entanto, estima-se que, aproximadamente, 10-40% das amostras de leite enviadas para cultura microbiológica apresentam resultados negativos.

Este fenómeno pode ocorrer por diversos factores como:
  • cura espontânea da infeção
     
  • número reduzido ou ausência de bactérias nas amostras de leite
     
  • localização da bactéria na glândula mamária
     
  • metodologia de identificação utilizada inadequada (para algumas bactérias ou para outros agentes causadores como os fungos)
O exame microbiológico às amostras de leite provenientes de casos clínicos é importante para a determinação das medidas adequadas relacionadas ao maneio, prevenção e tratamento das vacas. Assim, a identificação dos microrganismos responsáveis por uma cultura microbiológica negativa e a dinâmica das populações bacterianas durante a infecção auxiliariam em determinar as estratégias de controlo mais adequadas.

Para caracterizar os microrganismos causadores da mastite clínica, cujas culturas microbiológicas apresentaram isolamentos negativos, investigadores americanos realizaram um estudo, no qual submeteram amostras de leite ao PCR, método de diagnóstico por técnica da biologia molecular, que permite identificar os microrganismos pela amplificação e sequenciamento de determinadas regiões do DNA.

Para isto, a partir de três efectivos leiteiros, foram avaliadas 601 amostras de leite, provenientes de 154 vacas com sinais agudos de mastite. A gravidade de cada caso clínico, foi classificada de acordo com o aspecto do leite, do úbere e com o comprometimento sistémico ou não das vacas. Foram então comparadas, da mesma vaca, amostras de leite com isolamento negativo de quartos mamários infetados por mastite com amostras de quartos sem mastite. Ainda para comparação, foram coletadas amostras de leite de vacas sãs (sem mastite) e amostras de vacas com baixas CCS.

Em condições normais de crescimento, foram isoladas bactérias de 194 amostras de leite (122 vacas). Na Tabela 1, estão apresentados os resultados do isolamento bacteriano, do número de vacas e da percentagem de quartos mamários de acordo com o microrganismo causador.


Tabela 1: Relação entre o número de vacas e percentagem de quartos mamários comprometidos de acordo com a espécie bacteriana identificada.

Do total das 601 amostras, 258 (42,9%) não apresentaram crescimento significativo. Das 153 amostras recolhidas de quartos mamários com mastite, 43 (28,1%) não apresentaram crescimento significativo. Destas, 26 pares de amostras que apresentaram cultura negativa e quartos saudáveis foram selecionadas para rastreamento (screening). Duas amostras com baixa contagem de células somáticas que apresentaram cultura negativa e 10 pares de amostras foram selecionados para análise de sequenciamento de DNA de microrganismos.

Das amostras com cultura microbiológica negativa, quando foi realizado o sequenciamento de DNA, foram identificados Brevundimonas spp, Burkholderia spp, Sphingomonas spp e Stenotrophomonas spp das amostras de leite com mastite clínica; Pseudomonas spp, Psychrobacter spp e Ralstonia spp das amostras de leite de vacas saudáveis.

Algumas espécies de Burkholderia já foram associadas a casos de mastite em humanos e em ovelhas e Brevundiomas spp também foram previamente isoladas de leite, noutros estudos realizados. Stenotrophomonas spp são bactérias que degradam a queratina e essa habilidade pode facilitar sua colonização na glândula mamária. Já as Sphingomonas spp são bactérias Gram negativas capazes de sobreviver em ambientes normalmente intoleráveis para outras bactérias, o que indica uma vantagem de adaptação em condições adversas.

Das Pseudomonas spp, sabe-se que a P. aeruginosa é uma bactéria associada a casos moderados e graves de mastite e é facilmente identificada pelos métodos convencionais de isolamento. Por isso, neste estudo, possivelmente outras espécies de Pseudomonas foram associadas aos casos de mastite clínica. Até o momento, Psycobacter spp ainda não havia sido associada a episódios de mastite, entretanto, esta bactéria foi previamente isolada em leite crú e no ambiente das explorações. Ralstonia spp, também são capazes de sobreviver em ambientes adversos e encontradas nos sistemas de ordenha, o que é a origem da contaminação da glândula.

Assim, os resultados deste estudo mostraram que uma ampla variedade de bactérias são encontradas no leite de casos clínicos com isolamento negativo. Além disto, muitas vezes, estas bactérias não são identificadas pelos testes comumente utilizados na rotina dos laboratórios. Portanto, apesar de vários factores serem associados ao isolamento negativo, o aprimoramento e o uso de técnicas modernas de diagnóstico são importantes ferramentas para identificação bacteriana precisa e, consequentemente, a adoção de medidas mais específicas de controlo e prevenção da mastite nas explorações leiteiras.

Fonte: Phillips, G. J. et al, 2013. Bacterial community profiling of milk samples as a means to understand culture-negative bovine clinical mastitis. Plos One, v. 8, ed. 4, e61959, 2013.

*Mestranda do Departamento de Nutrição e Produção Animal (VNP), FMVZ-USP.


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