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Impacto da mastite no desempenho reprodutivo

Este artigo é um resumo de um artigo original do MilkPoint Brasil, escrito por Ricarda Maria dos Santos e José Luiz Moraes Vasconcelos e assenta na palestra apresentada pela Dra. Pamela L. Ruegg da Universidade de Wisconsin, no XIV Curso Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos, realizado em Uberlândia de 19 e 20 de março de 2015.

Introdução

Em muitas explorações leiteiras, dois dos problemas mais comuns de maneio são as falhas reprodutivas e a ocorrência de mastite. Os fatores de risco para mastite e distúrbios reprodutivos são semelhantes e pode ser difícil determinar o impacto isolado da mastite sobre o desempenho reprodutivo. A idade da vaca, o stress calórico, ocorrência de distúrbios metabólicos, imunossupressão na fase inicial da lactação e o alto rendimento leiteiro estão associados ao maior risco de mastite e redução da fertilidade. Entretanto, o impacto direto da mastite no desempenho reprodutivo já é conhecido há mais de 20 anos tendo sido alvo de diversas investigações.

O impacto negativo da mastite no desempenho reprodutivo parece ser decorrente da intensidade da resposta imunológica à infeção bacteriana intra-mamária (IIM = Infeção Intra Mamária). A mastite sub clínica (MS) é definida como uma IIM que resulta na migração de leucócitos para o úbere, porém sem alteração da aparência do leite, sendo geralmente detetada pelo aumento da contagem de células somáticas no leite. A mastite clínica (MC) é definida como uma IIM que causa inflamação a ponto de alterar o processo secretório do leite e resulta em produção de leite visivelmente alterado (com ou sem alterações na glândula mamária ou sintomas sistémicos)

Mastite Clínica versus Subclínica

Ao contrário da MS, a MC é definida com base numa resposta inflamatória mais evidente. A gravidade da MC resulta do grau de inflamação em resposta a características específicas do agente patogénico, da magnitude da exposição ao agente e da capacidade da vaca em responder rapidamente e eliminar a IIM. Tanto a MS como a MC estão comprovadamente associadas a um impacto negativo sobre o desempenho reprodutivo, mas é difícil diferenciar estas condições, uma vez que os métodos de deteção e as definições de mastite variam entre os estudos. Os investigadores quase sempre definem a MS em base nos valores mensais de CCS, mas os limiares variam; a maior parte dos estudos define MS como sendo CCS > 200.000 células/ml, enquanto outros autores usam um limiar mais sensível de CCS >150.000 células/ml.

Enquanto alguns estudos não estabelecem uma definição clara da MC, outros definem-na com base na presença de alterações no leite ou sinais de inflamação no úbere. Outros estudos definem MC quando há alterações visíveis no úbere, alterações da consistência do leite ou da condutividade elétrica do leite. Sem uma definição clara do que é MC e na ausência de um sistema de monitorização da condição, provavelmente muitos casos sem gravidade nem são detetados ou podem ser erroneamente classificados como MS. Para melhorar a consistência da descrição dos casos, MC deve ser classificada de acordo com a gravidade dos sintomas:

Gravidade 1 é definida como leve e o único sinal é a produção de leite alterado
Gravidade 2 é definida como moderada e as alterações do leite são acompanhadas por sinais restritos ao úbere (vermelhidão ou edema)
Gravidade 3 é definida como um caso grave de mastite clínica e os sintomas passam a ser sistémicos (redução do rendimento leiteiro, perda de apetite, febre ou outros sintomas sistémicos). O uso deste sistema simples de classificação pode ajudar a identificar se os casos leves estão a ser detetados, uma vez que a distribuição normal dos casos de mastite na população é de 50%, 35% e 15%, para gravidade 1, 2 e 3, respetivamente.

Schrick et al. (2001) observaram que vacas diagnosticadas com MS ou MC antes da inseminação apresentaram maior número de dias até o primeiro serviço, além de maior número de dias em aberto e de serviços por conceção quando comparadas a vacas saudáveis. A progressão dos sintomas do estado subclínico para o clínico durante o intervalo entre a primeira inseminação e a deteção da prenhez teve um grande impacto sobre o desempenho reprodutivo e resultou numa redução da fertilidade. A dinâmica da MS em relação à conceção foi estudada por Lavon et al. (2011b).

Neste estudo, valores de CCS foram usados para classificar a MS antes e depois da inseminação:

1) não infetada (CCS <150.000 células/ml antes e depois da IA);
2) curada (alto CCS antes da IA e baixo CCS depois da IA);
3) nova infeção (baixo CCS antes da IA e alto CCS depois da IA);
4) ou infeção crónica (alto CCS antes e depois da IA).

Os autores observaram que, comparativamente às vacas não infetadas, a probabilidade de conceção foi reduzida em todas as vacas diagnosticadas com MS, mas o impacto foi maior nos casos de vacas com mastite crónica.

Para estudar a associação de CCS com probabilidade de conceção, Lavon et al., (2011b) classificaram as vacas com mastite crónica com uma subida leve, moderada e alta de CCS. Os autores concluíram que qualquer aumento de CCS na época da IA reduzia a probabilidade de conceção, mas o efeito era mais intenso em vacas com as maiores contagens de CCS. Também demonstraram que a deteção de uma única CCS >1.000.000 células/ml no período de 10 dias antes da IA resulta em redução significativa da probabilidade de conceção.

Em vacas afetadas pela MS, foi observado que a probabilidade de IA resultar em prenhez é reduzida em 18% em vacas com CCS entre 200.000 e 399.000 células/ml (entre 1 e 30 dias pós-IA), mas a probabilidade é reduzida em quase 26% quando a CCS supera as 399.000 células/ml. Desta forma, parece que a intensidade da inflamação está associada à maior redução da fertilidade.

Cronologia da Mastite em Relação à Inseminação

A importância do momento de ocorrência da mastite em relação à inseminação foi avaliada em diversos estudos. O impacto da mastite foi avaliado nos períodos antes da IA, entre a IA e a primeira deteção de gestação e depois do primeiro teste de prenhez. A maior parte dos estudos indica que o período mais crítico é imediatamente antes e depois da inseminação. Tanto a mastite clínica e sub clínica antes da IA foram associadas a reduções na taxa de conceção, maior número de dias até a primeira IA e de dias abertos em comparação a vacas sem mastite clínica ou vacas com mastite mais tardia. A ocorrência da mastite clínica antes da IA reduziu a conceção ao primeiro serviço, a taxa de prenhez aos 320 DEL, elevou a incidência de aborto e a taxa de refugo.

Barker et al. (1998) foram os primeiros a observar a importância da associação temporal entre a ocorrência de MC e o desempenho reprodutivo, sendo os períodos de maior risco definidos como imediatamente antes da IA ou entre a IA e o primeiro diagnóstico de gestação. Outros estudos confirmaram que estes são os períodos de maior risco e que as estratégias preventivas devem ser direcionadas para a redução da incidência da mastite clínica durante este período.

Conclusões

As infeções intra-mamárias causadas por diferentes tipos de bactérias (Gram-positivas e negativas) estimulam o sistema imunitário da vaca e estas respostas imunitárias podem influenciar negativamente o desempenho reprodutivo. O intervalo de tempo entre a inseminação e a confirmação da prenhez é um período crítico e a ocorrência de mastite nesta fase pode resultar numa piora significativa do desempenho reprodutivo. A relação temporal entre a ocorrência de MS ou MC e o momento da inseminação é critica e os produtores devem compreender que instalações e programas de maneio, nutrição e ordenha devem ser concebidos de forma a minimizar a ocorrência de mastite.

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