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Mastites em cabras

POR NÚCLEO BUIÁTRICO DA AEFMV

CLÍNICA, REPRODUÇÃO & QUALIDADE DO LEITE

EM 29/01/2015

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Introdução

A mastite é uma inflamação da glândula mamária que ocorre como resposta, na maioria das vezes, a uma infecção causada por microrganismos. 1,2

As mastites podem ser: clínicas quando existem alterações no leite, úbere ou animal, detectáveis a olho nu; subclínicas quando as alterações não são detectáveis sem recurso a um meio de diagnóstico mais específico, como falaremos adiante.2,3  A mastite do tipo subclínica é a que mais predomina nos rebanhos de pequenos ruminantes, cuja prevalência estimada está entre 5-30%, podendo ser ainda maior. Em contrapartida, a mastite com evidências clínicas apresenta-se em níveis abaixo de 5%, podendo alcançar maiores taxas em determinadas situações. Contudo, dados a respeito da prevalência da mastite em caprinos e ovinos ainda são escassos.4 Segundo Miguel Angel Franco (5), o custo de uma mamite subclínica em pequenos ruminantes pode ir até 60€ por animal por ano, tendo em conta as perdas directas e indirectas.


Ilustração 1 – Cabra com mastite (Fotografia original cedida pelo Professor Miguel Saraiva Lima)

Epidemiologia


As mastites podem ter origem infecciosa, química (pouco frequente) ou física (também pouco frequente). As mastites infecciosas ocorrem sobretudo por infecção ascendente (via canal do teto), podendo também ter origem sistémica. No entanto, nos caprinos, há uma resistência maior às infecções ambientais, quando comparados com os bovinos, pois possuem uma maior capacidade de defesa celular da glândula mamária.1,6

Os agentes mais comuns relacionados com mastites clínicas são: Staphylococcus aureus (os de maior ocorrência), coliformes (sobretudo Escherichia Coli e Klebsiella), Mycoplasma sp e em menos frequência, Mannheimia haemolytica, Pseudomonas, Arcanobacterium pyogenes (mastite de Verão), outras bactérias oportunistas e alguns agentes fúngicos.
Em relação às mastites subclínicas, são mais frequentemente causadas por Staphilococci coagulase-negativo (sobretudo S. epidermidis e S. caprae). Também surgem cuasadas por Staphylococcus aureus, Streptococcus agalactiae, retrovírus (CAEcaprine arthitis-encephalopatis), Listeria monocytogenes e Brucella melitensis ou Brucella abortus.2,7,8

O principal risco de infecção é determinado pela patogenicidade dos microrganismos que colonizam o teto, assim como, pelas operações que favorecem a penetração dos organismos por meio do canal do teto. Devido a este facto, o momento da ordenha representa um ponto crítico para o controle das mastites em caprinos, sendo a própria máquina e sua regulação (pulso e pressão), as mãos do operador e o material utilizado, pontos fulcrais a ter especial atenção.

Também há factores ligados à cabra e ao ambiente que a envolve que têm uma importância elevada na infecção. Assim, a nível da fase de lactação, a fase inicial é a mais crítica, seguida da fase de secagem. Também a idade mais avançada e uma má conformação do úbere predispõem para a doença. Como factores ambientais, uma higiene deficiente e humidade elevada (úbere molhado) também podem contribuir para uma maior prevalência de mastites.1,9,10,11

Diagnóstico

O factor mais precoce que nos permite suspeitar de uma mamite é a quebra na produção leiteira, sendo que na mamite subclínica esta pode atingir valores na ordem dos 15%.5

A mamite clínica é de fácil diagnóstico, desde que haja boas práticas no maneio dos animais, já que os sinais clínicos são evidentes, podendo também haver alterações comportamentais. O exame físico é essencial. A observação do leite permite detectar alterações físicas como: cor e odor anormais, presença de coágulos, pus, sangue, etc. A observação dos primeiros jactos de leite pode ser vantajoso e, para isto pode utilizar-se uma raqueta do Teste Californiano de Mamites (TCM).


Ilustração 2 – TCM (Fotografia original cedida pelo Professor Miguel Saraiva Lima)

A nível do úbere, alterações do tamanho, consistência, temperatura ou cor (vermelhidão) do úbere indicam inflamação/infecção. É importante procurar sinais de fibrose, tumefacção (pela inflamação) ou atrofia do tecido mamário – a palpação é indispensável para detectar estas alterações. Deve-se ter atenção também aos linfonodos supramamários.

O isolamento de microrganismos patogénicos no leite é o golden standard – o único que se baseia na evidenciação do agente e não apenas dos seus produtos. No entanto, nem sempre há condições laboratoriais que o permitam; é dispendioso e demorado (tempo de crescimento dos microrganismos)
Há também testes indirectos em que os mais utilizados são o TCM (que detecta de forma indirecta aumento de células inflamatórias no leite em relação ao normal) e a contagem de células somáticas no leite, que quando aumentadas, significam reacção inflamatória na glândula mamária. Esta contagem nos caprinos é, no entanto, sujeita a muitas variações devidas ao indivíduo.1,12


Ilustração 3 – Alteração da cor do úbere com mastite (Fotografia original cedida pelo Professor Miguel Saraiva Lima)

Tratamento

O tratamento deve procurar ser rápido e eficaz. O melhor é usar fármacos específicos para a bactéria causadora da infecção, o que implica identificação prévia do agente e realização de um Teste de Sensibilidade a Antibióticos -TSA (há várias resistências referidas – penicilina, por exemplo). No entanto, este processo pode ser demorado, logo, inicia-se o tratamento com um antibiótico de largo espectro, que combata mais do que uma causa de infecção. As explorações de cabras leiteiras, devem ter o cuidado de com o seu veterinário preparar planos de actuação em casos de mastites, através de testes laboratoriais, sobretudo quando estas ocorrem de forma recorrente.2,13

Empiricamente, podem-se utilizar antibióticos de largo espectro ,como algumas cefalosporinas ou amoxicilina com ácido clavulânico.

A administração intramamária constitui o método de tratamento mais utilizado devido à sua conveniência e eficácia. Durante este tratamento é necessária uma higiene rigorosa e uma ordenha a fundo antes da administração do medicamento. É mais eficaz na fase seca (há maior contacto entre antibiótico e bactéria). A ordenha a fundo é também útil para “expulsar” os agentes e toxinas produzidas por alguns microorganismos.

O tratamento parenteral é recomendado em alguns casos de mastite clínica para prevenir ou controlar o desenvolvimento de infecções generalizadas. Nestes casos, deve-se ter o cuidado de escolher antibióticos que tenham boa penetração na glândula mamária. Aconselham-se tratamentos de 5 a 7 dias.

Como terapia de suporte, devem também ser administrados fluidos.

Em animais com desconforto evidente ou sinais de toxémia, pode-se ponderar também a administração de anti-inflamatório (flunixina meglumina ou dexametasona).
O tratamento pode ser eficaz na eliminação da infecção e normalização da composição do leite, mas em casos mais graves, pode não ser suficiente, sendo indicado o refugo (caso das mastites por Mycoplasma sp, por exemplo).2,13

Há também a hipótese de amputar o úbere, caso haja vontade do produtor em manter a cabra.2

Profilaxia

No que às instalações e equipamento diz respeito, uma boa higiene, em especial do local de ordenha, é uma prática indispensável para a redução das mastites ambientais. Na ordenha, o operador deverá manter um ambiente calmo, evitando o stress dos animais, o que pode causar retenção do leite. A desinfecção das tetinas entre cada fêmea permite diminuir as mastites contagiosas transmitidas pela máquina de ordenha. A ordenha a fundo, ou repasse, permite por seu lado manter a produção por um período mais prolongado e dificulta as infecções.

A instalação correta da sala de ordenha, para que o rebanho possa fluir com facilidade, sem stress nem necessidade de barulhos, como gritos e até agressões aos animais. Deverá permitir fazer a ordenha de forma calma, evitando a retenção do leite. As pulsações e pressões apropriadas, e mantidas devidamente calibradas, são outros factores a ter em conta. O estado das borrachas, juntas, e demais componentes em contacto com o leite, deverá ser verificado sendo substituídos logo que necessário.

O exame do estado dos úberes do efectivo no fim da lactação e no início da lactação seguinte é uma prática aconselhada.

A desinfeção dos tetos após o fim da ordenha é um procedimento recomendado por muitos autores, pois o canal e esfíncter do teto tendem a ficar dilatados após a ordenha, facilitando a entrada de microrganismos.2,13
A nível de profilaxia médica, existe também a hipótese de vacinação, podendo ser aconselhada contra o S. aureus, mas que deve ser ponderada situação a situação.

Conclusão

A nível dos pequenos ruminantes, a área da produção de leite e os problemas a elas associadas não está tão estudada como nos bovinos, mas ainda assim, a informação existente permite um controlo adequado da ocorrência de mastites, desde que seja prestada adequada atenção ao maneio e à higiene das instalações. As mastites subclínicas são a principal causa de perdas económicas numa exploração, e portanto deve haver uma maior preocupação no diagnóstico precoce destas.

*Artigo gentilmente revisto pelo Professor Miguel Saraiva Lima

Bibliografia


1- Mendonça, A. et al. – Instituto Politécnico de Bragança. Guia Sanitário para Criadores de Pequenos Ruminantes.

2- Smith, M.C.; Sherman, D.M. (2009). Goat Medicine (2ª edição). Willey-Bklackwell

3- Ricardo Bexiga (2014) Mastites - Aula de Clínica de Espécies Pecuárias

4- Contreras A., Sierra D., Sánchez A., Corrales J.C., Marco J.C., Paape M.J. & Gonzalo C. 2007. Mastitis in small ruminants. Small Rumin. Res. 68:145-153

5- Franco, M.A. (2014) Como calcular o custo das mastites numa exploração de pequenos ruminantes?

6- Paape,M.J. y Capuco, A.V. Cellular defense-mechanism in the udder and lactacion of goat.J Anim Scienc,v.75,p.556-565,1997

7- Corrales J.C., Sanchez A., Luengo C., Poveda J.B. & Contreras A. 1997. Effect of clinical contagious agalactia on the bulk tank milk somatic cell count in Murciano–Granadina goat herds. J. Dairy Sci. 87:3165-3171.

8- Pugh, D.G.; Baird, A.N. (2012). Sheep and Goat Medicine (2ª edição). Elsevier

9- Prestes D.S., Filappi A. & Cecim M. 2002. Susceptibilidade à mastite: fatores que a influenciam - uma revisão. Revta FZVA 9(1):118-132.

10- Pinheiro R.R., Gouveia A.M.G., Alves F.S.F. & Haddad J.P.A. 2000. Aspectos epidemiológicos da caprinocultura cearense. Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. 52(5):534-543.

11- Albizu I. & Baselga R. 2002. Sheep and goat mastitis: Seasonal variation in aetiology. Albeitar 53:28.

12- Cedenõ, C.B. et al (2012). Mastitis Caprina

13- Mavrogianni, V.S., Menzies, P.I., Fragkou, I.A. and G.C. Fthenakis. Principles of Mastitis Treat-ment in Sheep and Goats. (2011). Veterinary Clinics of North America: Food Animal Practice. 27, 1, 115-120.











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ANTONIO HENRQUE GONCALVES

EM 07/06/2018

Fiquei esclarecido sobre o meu assunto o meu Obrigado
CM

PORTALEGRE - PORTALEGRE - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 17/01/2016

Excelente texto!