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Monitorização de doenças metabólicas no periparto - Parte I: Cetose subclínica

POR DAVI BRITO DE ARAUJO, M.V., M.S., M.A.B.

CLÍNICA, REPRODUÇÃO & QUALIDADE DO LEITE

EM 09/11/2016

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Introdução

Invariavelmente, as vacas leiteiras apresentam algum grau de balanço energético negativo (BEN) durante o período de transição em resposta à alta necessidade de energia para a produção de leite e queda acentuada da ingestão de matéria seca (IMS), sendo assim incapaz de suprir essa necessidade1. Como resposta a tal necessidade, duas adaptações metabólicas ocorrem no animal. Na primeira, o metabolismo de glicose é alterado na tentativa de aumentar assim a síntese desse nutriente, e na segunda as reservas corporais de gordura são mobilizadas e convertidas em ácidos gordos não-esteríficados (AGNE) para serem utilizados também como fonte de energia2.

Figura 1. Metabolismo hepático dos ácidos graxos e balanço energético negativo.

Como pode ser observado na Figura 1, uma vez no fígado, os AGNE podem tomar duas vias distintas: oxidação ou esterificação. A oxidação dos AGNE pode ser completa formando CO2, ou parcial, formando os chamados corpos cetónicos, entre eles o beta-hidroxi-butirato (BHBA). Já os AGNE esterificados são armazenados como triglicerídeos (TG) e exportados na forma de lipoproteínas de densidade muito baixa ou VLDL. Devido a alta captação de AGNE e baixa exportação de VLDL, natural dos ruminantes, existe armazenamento excessivo de TG no fígado, causando esteatose , e aumento na formação de BHBA, causando cetose3.

Programas de monitorização

Atualmente, estima-se que de 30 a 50% das vacas de leite são afetadas por alguma forma de doença metabólica ou infecciosa durante o periparto. A alta concentração sérica de AGNE (> 0,4 mmol/L) entre 7 e 10 dias antes do parto estão associados ao aumento do risco de deslocamento de abomaso, retenção de placenta, descarte antes dos 60 dias em lactação e queda na produção de leite nos 4 primeiros meses de lactação. A cetose subclínica, aferida por valores séricos de BHBA maiores que 1200 µmol/L entre a 1ª e 2ª semana após o parto também está associada ao aumento dos casos de cetose clínica, torção de abomaso, retenção de placenta, metrite/endometrite, prolongamento do anestro pós-parto, aumento da gravidade da mastite e queda na produção de leite4.

O principal objetivo dos programas de monitorização de saúde de efetivos leiteiros é detectar problemas precocemente a fim de permitir intervenção, limitando assim as consequências geradas diretamente pelos custos do tratamento, e por consequência, os prejuízos relacionados a queda no desempenho produtivo e reprodutivo dos grupos de animais avaliados. Práticas rotineiras simples como o registo de doenças clínicas, medida do consumo de ração, produção de leite e score de condição corporal são fundamentais para o sucesso da prevenção de distúrbios metabólicos durante a transição. Nos dias de hoje, existem técnicas de monitorização que através da medida de alguns metabólitos específicos, como BHBA, permite que o técnico avalie o “status” energético dos animais, possibilitando mudanças que possam ser feitas cujo objetivo é minimizar a incidência e prevalência de cetose subclínica.

Figura 2. Exemplo de medidor digital portátil recomendado para análise das concentrações sanguíneas de BHBA em seres humanos e bovinos. Precision Xtra®, Abbott Laboratories, CA.

Monitorizando a ocorrência de cetose subclínica

Em termos de cetose clínica, a avaliação pode ser muito subjetiva, dependendo diretamente da habilidade do técnico ou funcionário em detectar a doença. Uma vez que os custos relacionados a cetose subclínica são maiores do que os da cetose clínica5, torna-se indispensável a monitorização precisa e precoce da cetose subclínica. A mensuração de BHBA sempre foi considerada difícil, demorada e onerosa porque depende de colheita de amostras de sangue para serem enviadas aos laboratórios, ou depende da colheita de leite e urina que são muitas vezes inviáveis, principalmente em rebanhos menores. Assim, até recentemente, não havia disponível no mercado testes que permitissem o técnico mensurar a cetose subclínica no campo. Atualmente, disponibilizou-se um exame de sangue para ser realizado ao lado do animal (ver Figura 2), que é facil de usar, altamente sensível e específico, e razoavelmente económico. O medidor digital é comercializado pela empresa Abbott Laboratories, com nome de Precision Xtra® nos E.U.A., e Optium Xceed® no Brasil. Esse aparelho foi elaborado para uso humano, mas de acordo com várias estudos5,6,7, é também indicado para bovinos leiteiros. Para que o teste seja realizado de forma adequada é necessário que uma gota de sangue do animal seja colocada numa tira reagente já inserida no medidor que vai determinar a concentração sanguínea de BHBA em poucos segundos.

Interpretação do teste

De maneira geral, a cetose é detectada nas primeiras duas semanas após o parto. Na prática deve-se controlar a entrada de vacas no período seco com condição corporal alta, priorizando scores que devem variar entre 3 e 3,54. Ainda, deve-se evitar o fornecimento excessivo de energia entre a secagem e o parto8, focando especialmente em medidas que maximizem o consumo de alimento nas últimas semanas pré-parto9.

O número de amostras necessárias para interpretação do teste depende da prevalência dos animais com doença, do grau de certeza desejado e do tamanho do grupo de interesse. Em termos práticos, com o mínimo de 5 amostras já é possível realizar o teste, e usando de 10 a 12 amostras, o técnico está apto a interpretar a maioria dos casos10 (ver Tabela 1). Com o monitor utilizado ao pé da vaca, o valor de referência (“cut-off values”) para cetose subclínica é de 1200 µmol/L, e uma prevalência (percentagem de animais diagnosticado com a doença num determinado momento) acima de 10% é considerada alarmante. Como citado acima, as amostras devem ser recolhidas durante os primeiros 15 dias após o parto, sempre no mesmo horário, de preferência entre 4 a 5 horas após o arraçoamento3.


Tabela 1. Exemplos do número de animais que devem ser amostrados como parte de um programa de monitoramento de cetose sub-clínica4.

Prevalência e incidência da doença

A cetose ultrapassou a acidose e a hipocalcemia como a doença metabólica mais importante nos efetivos dos E.U.A. desde o final da década de 90. Cerca de metade das vacas apresentam alguma forma, de moderada a grave, de esteatose hepática imediatamente após o parto11. Assim, não seria surpresa que a prevalência e a incidência (percentagem de vacas desenvolvendo cetose ao longo do tempo) sejam também bastante elevadas. Tanto uma quanto a outra apresentação da doença podem variar entre rebanhos, dependendo principalmente da nutrição e do meio ambiente, mas também do método de detecção, do tempo de amostragem e dos valores de referência a serem utilizados no teste.

De maneira conservadora, considera-se a proporção entre incidência e prevalência entre 2 e 3:13. De acordo com alguns levantamentos12, estima-se que a prevalência de cetose subclínica em rebanhos leiteiros durante as duas primeiras semanas pós-parto seja de aproximadamente 25%, quando utilizado valor de referência de 1200 µmol/L.

Somando todos os custos associados com morte, descarte, serviços veterinários, medicamentos, mão de obra, retardo na concepção e produção perdida causado pela cetose, um rebanho com incidência anual da doença de 14% apresenta perdas de 250 dólares/caso ou praticamente 3500 dólares para cada 100 vacas em lactação13. Valores de BHBA alto (> 1400 µmol/L) na 1ª semana após o parto resultou em perda de 334 kg de leite para cada animal diagnosticado, considerando 305 dias de lactação14.


Artigo adaptado do MilkPoint Brasil.

Referências 

1) J.K. Drackley, 1999. Biology of dairy cows during the transition period: The final frontier? J. Dairy Sci. 82:2259-2273.
2) A.A. Adewuyi et al., 2005. Non-esterified fatty acids (NEFA) in dairy cattle: A review. Vet Q. 27:117-126.
3) R.R. Grummer, 2011. Estratégias para previnir fígado gorduroso e cetose subclínica. Anais do XV curso “Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos”. Uberlândia.
4) S. LeBlanc, 2012. Monitoramento da saúde metabólica de gado de leite durante o período de transição. Anais do XVI curso “Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos”. Uberlândia.
5) G.R. Oetzel, 2010. Evaluation of hand-held Precision Xtra system for diagnosing ketosis in early lactation dairy cows. In: 2010 Joint Annual ASAS/ADSA Meeting. Denver.
6) M. Iwersen et al., 2009. Evaluation of an electronic cow-side test to detect subclinical ketosis in dairy cows. J. Dairy Sci. 92:2618-2624.
7) J. Hubbard et al., 2010. The effect of storage temperature on the accuracy of a cow-side test for ketosis. Can. Vet. J. 51:525-526.
8) H. M. Dann et al, 2006. Diets during far-off and close-up dry periods affect periparturient metabolism and lactation in multiparous cows. J. Dairy Sci. 89:3563-3577.
9) J.K. Drackley. 2007. New approaches to feeding dry cows. In: Tri-State Dairy Nutrition Conference. Fort Wayne.
10) G.R. Oetzel. 2004. Monitoring and testing dairy herds for metabolic diseases. Vet. Clin. N. Amer. Food. Anim. 20:651-674.
11) J.A.A. Pires & R.R. Grummer, 2009. Should protected choline or niacin be fed to periparturient cows? Anais do XIII curso “Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos”. Uberlândia.
12) T.F. Duffield et al., 2009. Impact of hyperketonemia in early lactation dairy cows on health and production. J. Dairy Sci. 92:571-580.
13) C. Guard, 2008. The cost of common diseases of dairy cattle. In: 2008 CVC Meeting. San Diego.
14) C.J. McLaren et al., 2006. The relationship between herd level disease incidence and a return over feed index in Ontario dairy herds. Can. Vet. J. 47:767-773.
 

DAVI BRITO DE ARAUJO, M.V., M.S., M.A.B.

Pecuarista e veterinário formado na Unesp-Botucatu. Atuou por 6 anos nos EUA em pesquisas relacionadas a saúde, nutrição e reprodução de bovinos (leite/corte). Tem 2 mestrados pela University of Florida.Hoje atua na área técnica de bovinos no Brasil.

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