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Monitorização de doenças metabólicas no periparto - Parte II: Cetose subclínica

POR DAVI BRITO DE ARAUJO, M.V., M.S., M.A.B.

CLÍNICA, REPRODUÇÃO & QUALIDADE DO LEITE

EM 15/11/2016

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"No último artigo foi discutida a importância da monitorização de distúrbios metabólicos com foco na cetose subclínica. Também foram revistos os métodos e indicadores para avaliação da condição energética associados às concentrações de beta-hidroxi-butirato (BHBA) no sangue. Nesse segundo e último artigo serão descritos os benefícios do maneio nutricional adequado e o uso de tecnologias estratégicas na prevenção e tratamento da cetose em vacas de leite durante o período de transição", por Davi Brito de Araujo.

A cetose

A cetose e fígado gordo são transtornos metabólicos oriundos de alterações no metabolismo de lipídios e hidratos de carbono em vacas de leite, principalmente durante o período de transição. Em bovinos, a cetose clínica é definida por elevada concentração sanguínea de corpos cetónicos (β-hidroxi-butirato ou BHBA > 27 mg/dL), associado com hipoglicemia (glicose < 45 mg/dL) e sinais clínicos da doença como: falta de apetite, anorexia, atonia ruminal, fezes secas, queda na produção de leite e sinais neurológicos como letargia, agressividade e excesso de movimentação de cabeça e língua.

Já a cetose subclínica define-se por excesso de corpos cetónicos no sangue (BHBA > 12 mg/dL), porém sem apresentação dos sinais clínicos descritos anteriormente. Por não apresentar sinais clínicos, a cetose subclínica pode trazer dificuldades para o diagnóstico, mas, é importante lembrar que a incidência da doença varia entre 30 – 60%, resultando em grandes prejuízos de ordem económica, uma vez que, vários outros transtornos e doenças têm raiz nesse transtorno metabólico.

Incidência e prevalência

É preciso salientar que incidência e prevalência são dois termos distintos. Nesse caso a prevalência de cetose subclínica refere-se ao número de animais diagnosticados com cetose subclínica num determinado momento. Já a incidência refere-se ao número de animais que desenvolve a doença ao longo de tempo, por exemplo, a lactação. Dessa forma pode-se dizer que a prevalência da cetose subclínica durante as duas primeiras semanas pós-parto e a incidência durante a lactação são bastante elevadas, sendo que de acordo com dados internacionais, nos EUA e no Canadá, a cetose subclínica ultrapassou a hipocalcémia desde o final dos anos 90 - como doença de maior importância económica para efetivos leiteiros.

De acordo com alguns levantamentos realizados por importantes pesquisadores da área de saúde e nutrição de bovinos em Wisconsin, EUA., de maneira conservadora deve-se considerar a relação proporcional entre incidência e prevalência de 2:1 e 2,5:1. Noutras palavras, num efetivo que no 10º dia pós-parto identifica 10% das vacas com cetose subclínica, significa que a incidência da doença ao longo da lactação anda em torno de 20-25%.

A maior incidência ocorre em animais de maior produção de leite, ou seja, vacas de alta produção entre a 3ª e 5ª lactação têm grandes hipóteses de desenvolver cetose subclínica pós-parto. 


Sintomas e tratamento

Como descrito anteriormente, diferente da cetose clínica, a cetose subclínica não apresenta sintomas. Dessa forma a monitorização através de tecnologias disponíveis no mercado é o melhor “remédio”, ou seja, a melhor forma de prevenção para reduzir a incidência da doença.

Formas de prevenção

Estratégias de maneio e alimentação adequados são fundamentais para a prevenção da cetose subclínica. Entre elas:

Maneio da condição corporal durante o final da gestação: Animais obesos, ou seja, com score de condição corporal superior a 3,5 (escala de 1 – 5) são mais propensos a desenvolver cetose. Geralmente a ocorrência de vacas obesas é consequência de lactação prolongada, e lactação prolongada é resultado de baixa eficiência reprodutiva. Vacas com períodos extensos de lactação tendem a ganhar mais peso e chegar ao período seco com excesso de reserva corporal. Dessa forma é relativamente normal encontrar baixa eficiência reprodutiva associada a maior ocorrência de cetose clínica e subclínica.

Balanço adequado de nutrientes: Tanto dietas com alta e com baixa densidade energética no final da gestação podem comprometer a saúde do animal, por acentuar o balanço negativo nessa fase e levar ao desenvolvimento de cetose. Por isso, mais importante que a densidade energética do alimento são as mudanças no consumo durante esse período. Dietas que permitem menores mudanças abruptas na ingestão são mais favoráveis. É recomendável oferecer dietas com nível mediano de FDN (35 – 40%) para assegurar uma densidade energética adequada, e que a fonte dessa FDN seja, principalmente, de forragens com tamanho longo de partículas (5 – 8 cm de comprimento) para estimular o enchimento e as contrações ruminais - evitando alterações abruptas no consumo.

Uso de aditivos na dieta: Existem inúmeros aditivos disponíveis no mercado com a finalidade de reduzir a ocorrência da cetose subclínica. Deve-se priorizar o uso de aditivos que aumentem o aporte energético ou que melhorem o metabolismo de lipídeos no fígado desses animais.

a) Aditivos potenciadores de desempenho ionóforos e não-ionóforos: Estes aditivos produzidos pelas mais variadas espécies de bactérias do género Streptomyces sp. são capazes de selecionar inúmeras bactérias específicas no rúmen e favorecer a produção de ácidos gordos importantes, aumentando o aporte de energia ao animal. As moléculas dessa categoria mais conhecidas são a monensina sódica. Vários estudos demonstram a eficiência da monensina sódica em reduzir a produção de AGNE e BHBA em resposta ao maior aporte energético devido à maior produção de ácido propiónico no rúmen.

b) Precursores glicogénicos:
Entre eles propionato de cálcio, propileno glicol e glicerol. Todos esses produtos oferecem precursores para a síntese de glicose no fígado. O interessante da molécula de propionato de cálcio, é que além fornecer o propionato, ela ainda fornece cálcio, mineral de extrema importância nesse período. Infelizmente esses ingredientes - quando incorporados -  à dieta inibem o consumo de matéria seca, e acabam tendo consumo esporádico pelo animal. Para que o uso seja efetivo, deve-se fornecer via oral, por exemplo, através do uso de sonda esofagiana, também conhecida no campo como “Drench”.  A quantidade sugerida varia entre 400-500 gramas em uma única dosagem - restrita às últimas duas semanas de gestação e aos primeiros 10-15 dias pós-parto.

c) Amino ácidos e vitaminas do complexo B:
São elementos fundamentais em muitos processos metabólicos que afetam o metabolismo de carboidratos e lipídeos. Nessa categoria os mais expressivos em respostas à prevenção de cetose e fígado gorduroso são: Colina, Niacina e Metionina. Além de reduzir as concentrações de AGNE no sangue a aumentar a exportação de VLDL hepática, a suplementação correta deles durante o período de transição pode aumentar a produção e teor de gordura no leite, além de reduzir inúmeras outras doenças de fundo energético. Para uso em ruminantes, é importante que essas moléculas sejam oferecidas com algum revestimento e proteção à ação ruminal. Dessa forma preserva-se a substância para que seja absorvida diretamente no intestino e não seja perdida pelos micro-organismos do rúmen do animal. Dosagens:

- Colina: De 10-15 gramas/animal/dia durante pré-parto, e de 15-20 gramas/animal/dia durante o pós-parto;
- Niacina: De 12-15 gramas/animal/dia durante peri-parto;
- Metionina: De 5-10 gramas/animal/dia na finalidade de atingir níveis adequados ao balanço Lisina e Metionina metabolizável numa relação de 3,1:1 ou seja; 7,2% e 2,6% respectivamente.




Impacto e prejuízos

Vários estudos epidemiológicos somando mais de 450.000 animais demostraram que em média a cetose subclínica está associada com redução de 5% na produção de leite em toda a lactação. O impacto económico direto numa produção 3.000 litros de leite/dia é de menos 150 litros de leite, ou seja, esse produtor deixa de produzir, praticamente, 55.000 litros de leite ao longo do ano.

Porém, os grandes prejuízos estão relacionados com o aparecimento de outras doenças. A prevalência da cetose subclínica está associada ao aumento de cetose clínica, deslocamento de abomaso, retenção de placenta, metrite/endometrite, mastite e hipocalcemia. Dessa forma, os prejuízos causados por tratamentos, descarte dos animais, descarte de leite, mão de obra, além de baixa produção e eficiência reprodutiva são, muitas vezes, irreversíveis durante a lactação.

A melhor maneira de reduzir as doenças descritas acima é melhorando o status energético - reduzindo a cetose subclínica através de uma monitorização e pensando em estratégias de alimentação e maneio aplicáveis à propriedade.


Aproveite para ler a Parte 1 deste artigo clicando aqui. 
 

DAVI BRITO DE ARAUJO, M.V., M.S., M.A.B.

Pecuarista e veterinário formado na Unesp-Botucatu. Atuou por 6 anos nos EUA em pesquisas relacionadas a saúde, nutrição e reprodução de bovinos (leite/corte). Tem 2 mestrados pela University of Florida.Hoje atua na área técnica de bovinos no Brasil.

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