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Monitorizar a composição do leite para avaliar as condições metabólicas, de saúde e reprodutivas

POR RICARDA MARIA DOS SANTOS

E JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

CLÍNICA, REPRODUÇÃO & QUALIDADE DO LEITE

EM 16/02/2015

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*Artigo original MilkPoint Brasil

Este texto é um excerto da palestra apresentada pelo Dr. William W. Thatcher da Universidade da Florida, no XVIII Curso Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos, realizado na Uberlândia entre 20 e 21 de março de 2014.


Para atender às crescentes necessidades alimentares da população mundial, é essencial adotar práticas de maneio e tecnologias que melhorem a eficiência da produção. Desta forma, ao mesmo tempo que se reduz o uso de recursos, diminui-se também o impacto ambiental. Atualmente, os esforços da investigação têm como foco os programas de maneio reprodutivo, os quais transcendem processos reprodutivos e coordenam disciplinas de fisiologia, nutrição, saúde, maneio e bem estar das vacas e da genética. O produtor de leite tem acesso a um reportório de abordagens para gerir as necessidades da vaca leiteira de alta produção para uma reprodução eficiente. O maneio reprodutivo deve ser abordado de forma holística e esta abordagem será cada mais refinada através dos contínuos avanços tecnológicos.

A associação entre a relação da percentagem de gordura e a percentagem de proteína (% gordura / % proteína) (RGP) do leite e o balanço energético tem sido bem caracterizado na lactação das vacas (Buttchereit et al., 2010). A RGP é mais acentuada durante o período inicial da lactação, quando a deficiência energética é mais pronunciada. A correlação entre a RGP e o balanço energético foi mais próxima na primeira fase da lactação. A explicação para esta associação biológica é que uma deficiência de energia leva a uma maior lipólise e captação de ácidos gordos pela glândula mamária. Ao mesmo tempo, a ingestão inadequada de hidratos de carbono fermentescíveis pode resultar na redução da proliferação das bactérias ruminais e, por conseguinte , da proteína bacteriana. Quando o fluxo de aminoácidos para a glândula mamária é reduzido, a percentagem de proteína do leite diminui. Como consequência, um aumento da RGP para 1,5 é indicativo de maior balanço energético negativo. O aumento da RPG para valores superiores a 1,5 é um indicador de transtornos no início da produção, como cetose, deslocamento do abomaso, quistos ováricos, mastite e claudicação (Toni et al., 2011).

Segundo Negussie et al, as associações genéticas positivas moderadas entre RGP e as características de fertilidade, como número de dias até a primeira IA e dias em aberto, variaram entre 0,14 e 0,28. As vacas com RGP relativamente maior tenderam a ter a primeira IA mais tarde devido ao balanço energético negativo e subsequente mobilização de reservas corporais, característica do início da lactação. A RGP do leite é uma característica hereditária que varia entre 0,16 e 0,25. Com as novas tecnologias na sala de ordenha para monitorizar a RGP do leite de cada vaca, é possível avaliar o balanço energético individual ou do efetivo. Isto permite ajustar as dietas de forma a otimizar os programas de arraçoamento do período de transição. Proporciona também uma visão potencial das respostas reprodutivas subsequentes, as quais influenciam o intervalo até à gestação, e é potencialmente útil para o melhoramento da fertilidade.

Futuros avanços para melhorar ainda mais a eficiência dos programas irão exigir a monitorização diária das vacas para diagnóstico precoce de gestação, condição e ciclo dos ovários, condição metabólica e de saúde, utilizando tecnologia de biosensores na sala de ordenha. Esta tecnologia, aliada a um alojamento otimizado para maximizar o conforto, a saúde e o bem-estar animal, irá permitir que vacas leiteiras de alta produção se reproduzam e mantenham altos níveis de produção de leite.

A empresa S.A.E AFIKIM Co de Israel apresenta o sistema Afilab (http://www.afimilk.com/sites/default/files/44/afilab.pdf), com instalações em Israel e na Europa, e estações de pesquisa selecionadas na América do Norte. Combinado com a tecnologia de infravermelhos, este sistema à base de um sensor na linha do leite estima os teores de gordura, proteína, lactose, CCS e a presença de sangue no leite, avaliando o padrão de dispersão da luz quando passa através do leite que flui para o receptor. Além disto, estão disponíveis sistemas integrados simultâneos para monitorizar a atividade da vaca por meio de pedómetros e/ou tags de atividade, para detectar mudanças na atividade que podem ser indicativas de que a vaca está no cio ou possivelmente com claudicação, bem como um sistema automático, de passagem, para monitorizar o peso corporal.

O Herd Navigator® (http://www.herdnavigator.com/pages) é um sistema com tecnologia diferente – é automático, online, com nanotecnologia, desenvolvido pela DeLaval e a FOSS, atualmente distribuído na Europa e no Canadá. A unidade Herd Navigator é instalada na exploração leiteira e utiliza a tecnologia de biosensores (Brandt et al., 2010) para medir quatro produtos hormonais ou metabólicos: progesterona, LDH (lactato desidrogenase), BHB (beta hidroxibutirato) e ureia.

Utilizando biomodelos computadorizados na exploração, o sistema pode descrever a condição fisiológica e metabólica das vacas, permitindo a tomada de decisões no momento oportuno. Os dados de progesterona são usados para prever cio, gestação, cistos, anestro e aborto. A enzima LDH é liberada no leite quando as células são destruídas durante uma inflamação no úbere. A LDH é adequada para a detecção dos estágios iniciais de mastite. Os corpos cetónicos, BHB, são usados principalmente para detectar cetose clínica e subclínica e outras anomalias que comprometem o metabolismo. A presença de ureia no leite pode ser indicador de consumo excessivo ou insuficiente de proteína na dieta. Estas tecnologias exemplificam o potencial das abordagens holísticas, integrando o status fisiológico e metabólico para otimizar o desempenho reprodutivo, a saúde e o bem estar da vaca leiteira em lactação. É provável que um biosensor mais específico para detetar gestação tenha a ser desenvolvido (Lawson et al., 2013).

Os autores mostraram que as glicoproteínas associadas à gestação (PAG) podem ser medidas no leite com um elevado grau de precisão aos 30 dias de gestação. A possibilidade de medir PAG no leite no dia 30 da gestação irá complementar o uso do programa ressincronização da IA para a reinseminação das vacas não gestantes.

RICARDA MARIA DOS SANTOS

Professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia.
Médica veterinária formada pela FMVZ-UNESP de Botucatu em 1995, com doutorado em Medicina Veterinária pela FCAV-UNESP de Jaboticabal em 2005.

JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

Médico Veterinário e professor da FMVZ/UNESP, campus de Botucatu

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