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Novas Ferramentas no Melhoramento Genético da Qualidade do Leite

POR ANA LUÍSA LOPES DA COSTA

E GERSON BARRETO MOURÃO

CLÍNICA, REPRODUÇÃO & QUALIDADE DO LEITE

EM 15/01/2014

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Nos últimos anos houve um aumento do interesse na qualidade nutricional diferenciada do leite e dos seus derivados, principalmente devido às indústrias de laticínios estarem cada vez mais competitivas no mercado internacional. Além de oferecer vantagens diretas para o produtor, essa valorização da qualidade vem com o pagamento diferenciado por leite de melhor qualidade, tanto para seus constituintes, tais como a proteína e a gordura, quanto para a redução na contagem de células somáticas.

Sabe-se também que com a excpeção de gordura do leite, proteína, contagem de células somáticas e a concentração de lactose do leite, poucos criadores leiteiros selecionam para a melhoria da qualidade do leite apesar dos seus benefícios para os laticínios, como uma ferramenta de marketing para produtos lácteos e como benefícios potenciais à saúde humana.

A combinação lipídica do leite mais favorável a saúde humana é de 30% de ácidos gordos saturados (C4:0 a C18:0), 60% de monoinsaturados (C18:1) e apenas 10% de poliinsaturados (C18:2), mas o leite bovino apresenta proporções muito diferentes das desejáveis. Ele caracteriza-se pela predominância de ácidos gordos saturados (70%) que são associados a altos níveis de LDL colesterol, e pequenas frações de ácidos gordos insaturados, dentre eles o C18:1 cis-9, e o ácido linoléico conjugado (CLA).

Esses resultados remetem para uma necessidade de alterar a composição lipídica do leite tornando-o mais saudável para o consumidor, e a genética clássica e molecular tem-se tornado uma importante ferramenta para este fim.

Para aumentar a produção e a qualidade do leite produzido, é necessário  encontrar animais com valores genéticos superiores para características de produção de leite através da avaliação genética, que pode permitir a identificação de animais com maiores potenciais genéticos para a produção de leite de melhor qualidade, sendo possível a identificação de animais com uma composição de leite especialmente peculiar.

Vale a pena lembrar, que as razões para a falta de interesse na seleção para melhoria da qualidade de leite estão ligadas à ausência de incentivos financeiros dos processadores (sobre e acima dos macro-componentes), assim como a incapacidade em quantificar a qualidade de leite na exploração e estimar diferenças genéticas entre touros.

Novas técnicas, relativamente acessíveis, estão disponíveis para medir os teores de gordura do leite, proteína e a concentração de lactose no leite bovino devido ao seu potencial alto e facilidade de uso, mas a concentração de ácidos gordos voláteis no leite, assim como concentração de lactoferrina, ainda precisam ser adequadamente desenvolvidas e estudadas.

Para aumentar os ganhos genéticos num programa de melhoramento podemos utilizar as informações de marcadores moleculares como uma ferramenta auxiliar no processo de seleção. Logo, a identificação de marcadores ligados a regiões no genoma que são responsáveis pela variação das características quantitativas (QTL) como produção de leite e produção de gordura, podem permitir que testes de DNA auxiliem na identificação de indivíduos com alto valor genético, reduzindo assim, o custo e o tempo requerido para a seleção e por consequência, aumentando a velocidade de resposta em programas de melhoramento.

Nas ultimas décadas os avanços na genética molecular levaram à identificação de marcadores genéticos associados com genes que influenciam características de interesse, o que levou a oportunidade de aumentar a resposta à seleção em particular para características onde a seleção tradicional é menos efetiva (para características de difícil mensuração e limitadas pelo sexo, como é o caso da produção de leite).

A seleção praticada com a inclusão de informações de marcadores genéticos é denominada de seleção assistida por marcadores (SAM) e a SAM tem sido usada para uma pré-seleção de jovens candidatos a touros, aumentando assim o diferencial de seleção, diminuindo o intervalo de gerações e aumentando o ganho genético, pois em primeira análise este animal passaria por uma avaliação molecular ampla para depois ser testada em condições de campo.

Além dos lipídos, outra característica candidata a SAM é a mastite, uma das doenças mais frequentes em bovinos de leite e uma das principais causadoras de queda na qualidade do leite e aumento das perdas na produção total, causando significativas perdas monetárias para as indústrias de leite no mundo inteiro. A resistência do animal a uma doença é influenciada pela sua genética e a identificação dos genes envolvidos nessa resistência pode levar a uma estratégia de SAM que pode contribuir para o controle do crescimento da infecção do patógeno através do aumento da frequência de genes desejáveis.

Vários estudos têm encontrado relação entre determinados genes e algumas características importantes de qualidade do leite, alguns deles podem ser observados na Tabela 1.

Tabela 1. Marcadores moleculares para qualidade do leite.



Baseados em resultados de ensaios de mapeamento de QTL em vacas leiteiras, os pesquisadores Hayes & Goddard (2001) concluíram que os efeitos dos QTLs são resultados da combinação de poucos genes de grande importância e vários de menor importância. Estes autores afirmam haver de 50 a 100 genes afetando a característica quantitativa em vacas leiteiras e do total desses genes, apenas 17% podem explicar até 90% da variância genética.

Sob abordagem quantitativa, a capacidade de herança genética estimada em vacas leiteiras para a gordura, proteína e concentrações de lactose no leite variam de 0,25 a 0,35, enquanto estimativas para contagem de células somáticas são de aproximadamente 0,10.

Esta capacidade estimada para os vários ácidos  gordosno leite de bovinos variam de 0,05 a 0,40, enquanto as estimativas para concentração de ureia são de 0,10 a 0,25. A estimativa de herdabilidade para a concentração de lactoferrina é da ordem de 0,20.

Pode-se assim, considerar que a identificação desses QTLs, com vistas à identificação de genes funcionais, na população é de grande interesse para o entendimento e ao progresso dos programas brasileiros de melhoramento genético em bovinos de leite.

Referências

BALIEIRO, E.S.; PEREIRA, J.C.C.; VALENTE, J. et al. Estimativas de parâmetros genéticos e de tendências fenotípica, genética e de ambiente de algumas características produtivas da raça Gir Leiteiro. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, v.52, n.3, p.266-275, 2000.

DEKKERS, J.C.M. Commercial application of marker- and gene-assisted selection in livestock: Strategies and lessons. Journal of Animal Science, v.82:E313-328, 2004.

HAYES, B.; GODDARD, M.E. The distribution of the effects of genes affecting quantitative traits in livestock. Genetic Selection Evolution, v.33, p.209-229, 2001.

HAYES, K.C.; KHOSLA, D.R. Dietary fatty acid thresholds and cholesterolemia. FASEB Journal, v.6, p.2600-2607, 1992.

PASCAL, G. Les apports quotidiens recommande´s en lipides et en acides gras. OCL, v.3, p.205-210, 1996.

ANA LUÍSA LOPES DA COSTA

GERSON BARRETO MOURÃO

Professor de Genética e Melhoramento Animal na ESALQ/USP. Publicou mais 80 artigos científicos. É editor associado da Scientia Agricola, da revista Visão Agrícola e bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq

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