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O método de secagem influencia o risco de mastite na próxima lactação

Tiago Tomazi* e Marcos Veiga dos Santos
Artigo MilkPoint Brasil

O período seco é a fase do ciclo produtivo das vacas que tem por objetivo a manutenção da sanidade do úbere, bem como, garantir a produção de leite após o parto. Alcançar este objetivo é sempre um desafio, pois as vacas são altamente susceptíveis a infecções intramamárias (IIM) durante o início do período seco e a colostrogénese.

Estudos recentes demonstram que a taxa de novas IIM é maior durante o período seco que durante a lactação. Infecções iniciadas durante o período seco são normalmente causadas por agentes ambientais, e algumas destas infecções persistem durante a lactação seguinte.

Dois métodos de secagem são normalmente utilizados em explorações leiteiras: o método de secagem abrupta, no qual, a ordenha é cessada no dia da aplicação do antibiótico para vacas secas; e o método de ordenha intermitente, com redução da frequência de ordenhas na última semana de lactação. O método de secagem tem relação com a produção de leite no momento de secar as vacas e exerce influência sobre a presença de IIM no início da lactação seguinte.

Ordenhas intermitentes podem reduzir a produção de leite, o que pode facilitar a involução dos tecidos mamários e aumentar os fatores de defesa naturais contidos no leite como a lactoferrina. Mesmo assim, a forma de secagem mais recomendada em efetivos leiteiros é a paralisação abrupta da ordenha ao final da lactação. Em vacas de alta produção, este método pode causar pressão excessiva na glândula mamária e canal do teto, o que leva ao gotejamento de leite e permanência do canal dos tetos abertos por períodos prolongados.

Num estudo recente, investigadores dos EUA avaliaram a influência da produção de leite e da ocorrência de infecção no momento da secagem sobre a probabilidade de IIM no início da lactação seguinte por meio da comparação de dois métodos de secagem. Cento e vinte sete vacas das raças Jersey e Holandesa, em fase final de lactação, fizeram parte do estudo que teve duração de dois anos. As vacas foram agrupadas por raça e separadas ao acaso em dois grupos durante a semana antecedente a secagem: grupo de ordenha intermitente e grupo controle (procedimento de ordenha de rotina).
As vacas do grupo de ordenha intermitente foram ordenhadas pela manhã nos primeiros quatro dias, não no quinto dia, eram ordenhadas na manhã seguinte, não eram ordenhadas por mais um dia inteiro, e por fim, eram ordenhadas na manhã que antecedia a secagem. As vacas do grupo controle eram normalmente ordenhadas duas vezes ao dia até o dia da secagem, quando eram ordenhadas somente de manhã. Após a última ordenha, os quartos mamários de todas as vacas foram infundidos com antibiótico para vacas secas..

As recolhas de amostras de leite dos quartos mamários foram realizadas no dia da escolha dos animais (pré-secagem), na secagem e três dias após o parto. O leite foi então transportado ao laboratório para identificação microbiológica, a fim de caracterizar a ocorrência da infecção no quarto mamário. A concentração de lactoferrina nos quartos mamários foi quantificada a partir das amostras coletadas uma semana antes e no momento da secagem. Este procedimento foi realizado para avaliação do efeito da ordenha intermitente sobre os níveis deste fator de defesa natural no leite bovino. A produção diária de cada vaca durante a semana final de lactação foi registada por meio de sistema de gestão e controlo leiteiro. Amostras dos quartos mamários foram recolhidas e enviadas para análises CCS.

Ao final do estudo, os dados de 112 vacas foram analisados, 56 com secagem abrupta e 56 com secagem intermitente. As vacas submetidas à ordenha intermitente produziram em média de 74 Kg, enquanto as vacas do grupo controle tiveram produção de 129 kg durante a última semana de lactação. A maioria dos quartos que estavam sadios na pré-secagem permaneceram desta forma na secagem. A porcentagem total de quartos infectados, curados, persistentemente infectados, bem como os agentes causadores de mastite de ambos os grupos estão presentes na Tabela 2.

A proporção de quartos infectados no parto não diferiu entre os grupos avaliados. Nas vacas com secagem intermitente , 84% das infecções presentes na secagem curaram-se durante o período seco. Da mesma forma, 85% das IIM do grupo controle curaram-se neste período. A menor taxa de cura foi observada nas infecções por S. aureus. Não foram observadas diferenças no número de infecções novas ou persistentes entre os grupos (Tabela 2).

Tabela 2: Distribuição de diferentes microrganismos isolados de quartos mamários de vacas dos grupos tratamento (ordenha intermitente) e controle (ordenha usual) provenientes de amostras coletadas na pré-secagem, secagem e três dias após o parto.

ECN – Estafilococos coagulase negativa; PI – Quartos mamários persistentemente infectados; IIM – Infecções intramamárias; Outras – Arcanobacterium pyogenes, Nocardia spp. e leveduras. FONTE: Adaptado de Newman et al. (2010).

Quartos infectados por agentes primários na secagem apresentaram 7,6 vezes mais hipótese de permanecerem infectados no pós-parto quando comparados com quartos não infectados. Quartos infectados com agentes secundários na secagem demonstraram 3,3 vezes mais hipótese de permanecerem infectados no parto que os quartos sadios.
Quartos não infectados de vacas com produção acima de 115 kg durante a última semana de lactação tiveram 7,1 vezes mais hipótese de estarem infectados no parto que quartos com produção inferior a 75 kg, no mesmo período. Vacas com produção por quarto entre 75 e 115 kg durante a última semana de lactação também demonstraram tendência a apresentarem IIM na ordenha pós-parto quando comparadas a vacas com produção inferior a 75 Kg. Em contrapartida, vacas ordenhadas intermitentemente antes da secagem foram 4,2 vezes mais predispostas a estarem infectadas no pós-parto que vacas do grupo controle.

Os resultados deste estudo sugerem que o efeito protetor desencadeado pela produção reduzida na secagem deixa de atuar em vacas que já estão infectadas. Volumes menores na secagem permitem a formação do tampão de queratina e acelera o encerramento do canal do teto, o que forma uma barreira contra agentes causadores da mastite.

Quartos não infectados que foram ordenhados intermitentemente antes da secagem tiveram maior tendência a estarem infectados no parto que os quartos sadios das vacas do grupo controle, quando se avaliou a produção de leite no final da lactação. A ordenha intermitente parece ter dois efeitos opostos: enquanto este método de secagem reduz a produção de leite e promove um efeito protetor, parece aumentar o risco de IIM no parto. Este estudo foi limitado a um único efetivo e tipo de maneio, entretanto, os seus resultados confirmam a observação de outros estudos anteriores que relatam que alta produção de leite na secagem é um fator de risco para IIM no início da lactação seguinte.

Mesmo que as concentrações de lactoferrina na secagem tenham sido superiores no grupo de ordenha intermitente que no grupo controle, este fator de defesa natural do leite não demonstrou relação com IIM na secagem e pareceu não ter efeito sobre a taxa de cura de infecções existentes ou desenvolvimento de novas infecções.

O status de infecção do quarto mamário na secagem foi um fator de risco significativo sobre a ocorrência de mastite após o parto. Isto é interessante, pois todos os quartos de todas as vacas incluídas neste estudo foram tratadas com antibiótico para vacas secas, e em geral, as taxas de cura foram relativamente altas (84-85%). Para maximizar o benefício da terapia de vaca seca e minimizar a frequência de tratamentos durante a lactação, que normalmente não são efetivos, é importante identificar cuidadosamente as vacas que têm alta probabilidade de cura. Sugere-se que vacas velhas, com alta CCS, histórico de mastite clínica e infecções crónicas por S. aureus sejam candidatas ao descarte. Além disso, a redução da produção de leite antes da secagem das vacas é uma prática que pode ser utilizada como uma estratégia de manejo para a redução de IIM no início da próxima lactação.

Fonte: Newman et al.; Journal of Dairy Research (2010) 77 :99–106.

*Tiago Tomazi é médico veterinário e mestrando do Programa de Pós-Graduação em Nutrição e Produção Animal da FMVZ-USP (http://www2.fmvz.usp.br/nutricaoanimal/) 

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