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Tratamento homeopático de mastite clínica

Susana Nori de Macedo * e Marcos Veiga dos Santos

Artigo original do MilkPoint Brasil

A mastite é um processo inflamatório da glândula mamária e é a principal responsável pela redução da quantidade e da qualidade do leite produzido. Além disso, a mastite é a principal causa da utilização de antimicrobianos em vacas em lactação. Nos casos clínicos, que correspondem a cerca de 10% dos casos observados nas primeiras semanas após o parto, o tratamento com antimicrobianos apresenta taxa de cura variável. No entanto, o uso inadequado de antimicrobianos para controle da mastite e o não respeito ao período de carência podem deixar resíduos destes produtos no leite, o que pode elevar nos seres humanos a resistência aos diversos antimicrobianos. A maior preocupação dos consumidores quanto à qualidade dos alimentos é crescente no mundo inteiro e, por este motivo, tem-se aumentado a busca por alternativas que diminuam os riscos de contaminação por resíduos de antimicrobianos no leite.



Para buscar alternativas ao uso dos antibióticos, nos últimos anos ocorreu aumento do interesse de uso da terapia homeopática, que consiste no uso de compostos em baixíssimas concentrações, mas que, em quantidades elevadas, provocariam os sinais de determinada doença em um animal sadio. Embora existam estudos sobre o uso de medicamentos homeopáticos, os resultados tem sido variáveis e insuficientes uma conclusão definitiva.

O uso da terapia homeopática para o controle da mastite é mais frequente nos sistemas de produção de leite orgânico, nos quais é proibida o uso de antibióticos e antimicrobianos, tanto de forma profilática quanto terapêutica. Em todo o mundo entre 30 e 50% das fazendas certificadas como produtoras de leite orgânico utilizam a terapia homeopática como principal forma de controle e tratamento das mastites. No entanto, a eficácia das substâncias utilizadas nesse tipo de tratamento é contestada principalmente pela ausência de grupo controle adequado, que é utilizado para comparação da efetividade da terapia homeopática.

Para avaliar a eficácia da terapia homeopática em casos de mastite clínica aguda leve ou moderada, um grupo de pesquisadores alemães realizou um experimento em 4 rebanhos comerciais, sendo um com sistema de produção de leite orgânico e três com sistema convencional. Os rebanhos tinham entre 75 e 300 vacas em lactação, que foram avaliadas mensalmente quanto à produção de leite e CCS, durante dois anos e meio. As vacas que apresentaram mastite clínica foram distribuídas aleatoriamente entre os tratamentos: homeopático (n = 58); com antimicrobiano (n = 46); ou controle (placebo) (n = 43). Para cada caso de mastite clínica foram coletadas amostras de leite para cultura microbiológica nos dias 0, 7, 14, 28 e 56, sendo o dia 0 o momento em que foi detectada a mastite.

Neste estudo, não houve diferença na produção de leite e na CCS entre os tratamentos e foi observado que dentre os 147 casos de mastite clínica nos rebanhos, em 62% deles a cultura microbiológica foi negativa. Nestas situações de ausência de crescimento na cultura, não é recomendado o uso de antimicrobiano, pois em geral o próprio sistema imune da vaca pode combater o patógeno. Nas amostras com cultura microbiológica positiva, todos os micro-organismos isolados foram patógenos ambientais.
Na primeira semana após a observação dos sinais clínicos da mastite, cerca de 83% das vacas que receberam antimicrobiano estavam curadas, enquanto que a taxa de cura das que receberam tratamento homeopático foi de 43,6% e de 56,5% para os animais do grupo placebo. No entanto, a taxa de cura aos 56 dias após o aparecimento dos sinais clínicos, foi de 36% para os animais que receberam a terapia homeopática, 24% para os tratados com antibiótico e 16% para os que receberam placebo.

Um outro estudo foi realizado na Nova Zelândia para avaliar a viabilidade do tratamento homeopático nos casos de mastite clínica em vacas no início da lactação. Para este experimento, foram utilizadas 227 vacas com no máximo 90 dias em lactação, oriundas de 7 rebanhos leiteiros comerciais. As vacas foram aleatoriamente distribuídas em dois grupos, sendo que um recebeu tratamento homeopático (n = 114) e o outro foi tratado com antimicrobiano (n = 113).

Os pesquisadores observaram que 77% dos casos de mastite clínica ocorreram durante a primeira semana após o parto. Das 227 vacas estudadas, em 92% foram obtidas culturaa microbiológicas positivas. As principais espécies isoladas foram: Streptococcus uberis (67%), Staphylococcus aureus (7%), Streptococcus dysgalactiae (5%), Staphylococcus coagulase negativa (15%) e Escherichia coli (3%).

A taxa de cura das vacas tratadas com antimicrobiano foi de 74% enquanto que naquelas que receberam tratamento homeopático foi de 36%. No entanto, dentre as vacas que receberam tratamento com antimicrobiano logo após o aparecimento dos sinais clínicos, 95% retornaram à ordenha nos dias seguintes ao tratamento e não precisaram de tratamento adicional, enquanto que as vacas que receberam tratamento homeopático essa taxa foi de 63%. O número de casos observados e a taxas de cura (%) para cada um dos patógenos isolados neste experimento estão na Tabela 1.

Tabela 1 – Número de casos de mastite clínica e taxa de cura nas primeiras semanas pós-parto em vacas tratadas com antimicrobiano ou homeopatia na Nova Zelândia.




Adaptado de Williamson e Lacy-Hulbert (2014).

Conforme apresentado na Tabela 1, a taxa de cura das vacas que receberam tratamento com antimicrobiano foi superior nos casos de mastite clínica causada por Streptococcus uberis e Staphylococcus coagulase negativa. As taxas de cura entre os tratamentos com antimicrobiano e homeopatia nas vacas com mastite clínica causada por Staphylococcus aureus foram similares. Nos casos em que foram isolados Streptococcus dysgalactiae e Escherichia coli os animais que receberam tratamento homeopático apresentaram maior taxa de cura em comparação aos que foram tratados com antimicrobiano.

O rápido retorno da vaca para a ordenha e a prevenção da doença sistêmica são os principais objetivos do tratamento dos casos clínicos de mastite. Como apresentado no primeiro experimento, o uso de tratamento homeopático apresenta menor taxa de cura e somente após longo tempo de tratamento. Dessa forma, não há evidência que apoie o uso de tratamento homeopático para vacas leiteiras como alternativa à terapia antimicrobiana para o tratamento da mastite clínica. A estratégia mais eficaz é o uso de antimicrobianos adequados pelo tempo recomendado, devendo, da mesma forma, ser respeitado o período de carência indicado.


Fontes: Williamson, J.H.; Lacy-Hulbert, S.J. New Zealand Veterinary Journal, v.62, n.1, p.8-14, 2014; Werner, C. et al. Journal of Dairy Research, v.77, n., p.460-467, 2010.

*Susana Nori de Macedo é zootecnista e estudante de doutorado em Qualidade e Produtividade Animal da FZEA-USP. 

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